A frustração do meu filho e o julgamento do mensalão


Era tarde da noite e o meu filho de 18 anos entrou em uma estação para pegar o ultimo trem que o levaria para casa. Porém, o trem já havia passado. Ele então se dirigiu a um policial para saber se seria perigoso seguir a pés até a casa. O guarda lhe disse que seria seguro, mas se ofereceu para levá-lo.  O meu filho aceitou a carona e chegou tranquilamente em casa.

Esse evento foi um dos que marcaram o mês de julho de 2011 que o meu filho passou estudando inglês em Vancouver, no Canadá. Ele voltou ao Brasil impressionado, entre outros, com a segurança, a qualidade do transporte público, a limpeza, a qualidade dos parques públicos e o preço mais baixo de diversos produtos. Enfim, ele pode comparar com sentimentos e observações diretas o que as estatísticas  revelam em números. Nossos índices socioeconômicos estão muito abaixo dos de países desenvolvidos.

Antes de ele ir para o Canadá, minha esposa estava preocupada se o nosso filho de 19 anos se adaptaria bem ao país. Eu respondi que o risco era ele não querer voltar. De fato, quando voltou, ele nos disse que gostaria de trabalhar no Canadá após sua graduação no Brasil, prevista para 2014.

Em julho deste ano, meu filho retornou a Vancouver para retomar seus estudos em inglês. Desta vez, mais maduro, ele aprofundou suas observações sobre a vida em países mais desenvolvidos que o Brasil, tanto pelas experiências locais quanto por conviver com jovens de outros países, como a Alemanha. Ele voltou ainda mais frustrado com o Brasil e considerando a possibilidade de concluir seu curso universitário fora do país.

Compreendi a frustração do meu filho. Desde que comecei a refletir sobre o Brasil, lá pelos meus 15 anos, em 1982, sinto uma certa frustração crônica com tantas mazelas, crises econômicas, corrupção e injustiças.  Para continuar no Brasil converto  a frustração em esperança de que podemos melhorar.  Tenho conseguido renovar minha esperança com alguns avanços como a redemocratização, o impedimento de Collor, o controle da inflação,  alguns ganhos ambientais como a criação de áreas protegidas e a redução do desmatamento.

Apesar destes progressos, males como a violência, a desigualdade social, a corrupção crônica, o caos e a degradação das cidades são massacrantes para quem consegue comparar o Brasil com quem atingiu melhores índices de desenvolvimento.

O desespero pode ser ainda maior quando observamos que alguns dos avanços podem ser desfeitos como as ações do Congresso para enfraquecer as leis ambientais e para tirar o poder de investigação do Ministério Público. Além disso, há sinais de que um modesto progresso econômico recente levou a certa acomodação. Sobre isso, um alto executivo de um banco multilateral me disse recentemente.

 O Lula foi muito inteligente: com as bolsas sociais comprou os mais pobres, com as bolsas empresários (empréstimos altamente subsidiados de bancos públicos) comprou a elite econômica.

Assim, uma parte expressiva da população parece satisfeita por termos chegado no meio do caminho.

Diante deste cenário cinza, o julgamento do mensalão é a minha atual fagulha de esperança. A condenação dos acusados poderia inibir praticas que estão na raiz de nosso desenvolvimento medíocre. E eu poderia dizer ao meu filho que há esperança. Ele poderia ir estudar e até morar fora do Brasil por opção, não pela frustração com o Brasil.

Se a justiça falhar mais uma vez neste caso emblemático, será um duro golpe na esperança de que o Brasil pode continuar melhorando.

P.S: Enquanto eu esboçava este artigo, li neste blog mais um exemplo de como o Brasil tem se acostumado ao horror.

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3 Responses to A frustração do meu filho e o julgamento do mensalão

  1. jose disse:

    “Quem diz que a justiça não funciona no Brasil, se engana. Ela é eficiente, rigorosa e perseverante quando se trata de punir pessoas ou instituições que não têm influência econômica ou política. Nestes casos, a justiça vai às últimas consequências para provar que vigia o uso correto do dinheiro público e não descansa enquanto não vence todos os argumentos interpostos no caminho”

    Mary Allegretti
    Antropóloga

  2. Lincoln disse:

    A impunidade impera!

    A denúncia foi feita por três trabalhadores que conseguiram fugir de uma área de desmate, onde estavam sendo mantidos forçados.

    “Em depoimento preliminar, logo depois de apresentarem a denúncia, os homens relataram que, na fazenda, as ordens eram para fazer uma derrubada completa, incluindo madeiras nobres e até castanheiras, o que configura crime ambiental”. O homem de camisa vermelha, acusado de contratar os trabalhadores, assumiu que era responsável pelo trabalho. Com base nos relatos dos trabalhadores. Erenilton Lima da Silva, de 40 anos, assumiu a culpa, mas disse que também era forçado a cumprir a função de “Gato”, que, na gíria policial, significa a pessoa responsável por contratar trabalhadores escravos, sob promessas mirabolantes.
    O responsável é criminoso contumaz com varias já embargadas pelo IBAMA É TAMBÉM PERMANECE IMPUNE e cada vez mais rico.

    VEJA esta no YouTube http://www.youtube.com/watch?v=QNOrXGjXFv0

    • Paulo Barreto disse:

      Obrigado pelo alerta.

      Enviei para o Procurador Federal em Belém. Já tinha alertado para o fato da degradação ambiental estar acompanhada da degradação humana nestes locais

      Paulo

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