Meus interesses nasceram na floresta e na fazenda


No mundo profissional as pessoas geralmente se definem pela sua educação formal e experiências de trabalho. Entretanto, acredito que muitas das perspectivas e valores que orientam os profissionais são formados antes da vida profissional. A seguir resumo minhas origens que ajudaram a moldar meu perfil e interesses profissionais.

Nasci no fim de 1967, em Medeiros Neto, uma minúscula cidade no sul da Bahia. Cerca de um mês depois eu estava com minha família em um caminhão pau de arara rumo a Amazônia, especificamente rumo a uma vila chamada Itinga, na divisa do Maranhão e o Pará.

Minha família estava indo em busca de terra para a agropecuária depois que o governo federal abriu a Rodovia Belém-Brasília. Minha mãe conta que achava que eu não sobreviveria de tanto que eu chorava com diarreia nos vários dias da viagem.

Meu pai já estava no Pará junto com o meu avô materno. O meu avô decidiu vir para a Amazônia depois que vendeu parte da terra que herdara do meu bisavô. Meu pai, que havia recebido sua parte numa partilha que seu pai fizera de uma terra, embarcou na ideia de conseguir também uma terra maior. Como o dinheiro era pouco, meu pai só conseguiu comprar uma área distante 50 km do Itinga, acessível via fluvial e a pés.

Meses depois que eles chegaram, meu pai adoeceu com malária na terra do meu avô, e partiu para o Itinga para se tratar e trabalhar em uma loja de ferragens. O dono da loja gostou do trabalho do meu pai e lhe pediu para que trabalhasse em um outro empreendimento seu; uma lanchonete na cidade de Castanhal, situada às margens da Belém-Brasíli,a no Pará, há cerca de 400 km ao norte do Itinga e a 70 km a oeste de Belém.

Apesar de ser um lugar pequeno, ao longo do tempo Castanhal ofereceu várias oportunidades à minha família. Lá, os meus pais começaram o próprio negócio; uma pequena fábrica de pastéis para fornecer para as lanchonetes.  Até hoje, 43 anos depois, eles mantém o negócio.

Além disso, minha mãe realizou uma pequenina parte do seu sonho, que era estudar. Cursou, à noite, alguns módulos do Mobral – um programa de alfabetização de adultos – e depois fez um curso de culinária no qual aprendeu a fazer doces, bolos e salgadinhos. Como eu ainda era criança e a minha mãe não tinha com quem me deixar em casa, ela me levava para a aulas de culinária. Até hoje me recordo do cheiro das comidas, que comíamos no final de cada aula. As novas habilidades culinárias permitiram, então, que minha mãe começasse a atender encomendas para festas.

Outra conquista foram bolsas de estudos que a minha mãe conseguiu para nós, eu e meu irmão mais velho, para estudarmos em uma escola privada próximo de casa. Estudar e ajudar meus pais a fazer salgadinhos e doces tomou boa parte da minha infância e adolescência. Começávamos de madrugada, pois tínhamos que entregar os salgados bem cedo para as lanchonetes. Eu vendia os salgados na feira e para os estudantes na hora do recreio em escolas próximas de casa. Lembro-me uma vez em que entreguei o dinheiro arrecadado com as vendas  à minha mãe e ela disse que seria investido na terra no Maranhão. Ironicamente, ainda criança ajudei a financiar o desmatamento da Amazônia.

Nas férias escolares minha mãe costumava levar eu e o meu irmão para passar uma semana com os meus avós e tios, que continuaram na roça.  Eu esperava o ano inteiro por essas semanas, as quais marcaram muito os meus interesses. Viajávamos de ônibus de Castanhal até  o Itinga, de onde seguíamos a cavalo até a terra do meu avô. Isto aconteceu em nossas primeiras viagens, na década de 1970, e eu viajava os 20 km na garupa de uma mula conduzida por meu avô ou minha mãe.

Naquela  época, o caminho era uma trilha na floresta que eu percorria às vezes com medo e sempre com admiração. Eu temia cair da mula enquanto subíamos ladeiras muito inclinadas e escorregadias. Impressionavam-me os sons da floresta.  O canto do joão-do-mato era o mais impressionante, mas infelizmente nunca avistei um deles. Outros protagonistas da trilha sonora da viagem eram os bugios, cigarras, papagaios, araras, jacús e jacamins. Eventualmente, avistávamos os animais, o que é raro durante o dia na floresta.

Na casa dos avós, ao longo de vários anos, fui vivenciando grande parte das experiências memoráveis, como banhar no rio, pescar com anzol ou com bacia só para apreciar a beleza dos peixes ou para comê-los,  acompanhar a fabricação de farinha, saborear comida preparada no fogão a lenha e coletar e preparar açaí com o meu avô, uma novidade também para ele, já que inexistia açaí na Bahia.

No início da adolescência passei a acompanhar meu avô na lida com o gado. Eu tirava leite, cuidava da bicheira de algum ferimento, mudava o gado de pasto e buscava um novilho desgarrado. Por alguns anos a fazenda parecia que ia bem. Ele chegou a ter cerca de  350 cabeças de gado, que para os padrões da família, era muito.

Entretanto, ao longo do tempo, comecei também a perceber indícios da degradação ambiental e da insustentabilidade das atividades na região. Os madeireiros abriram estradas que facilitaram o transporte, mas que, por serem mal construídas, resultavam em vários pontos de assoreamento dos rios e erosão ao longo do caminho.

Com a avidez de ocupar as áreas, as pessoas, inclusive meu avô, desmatavam terrenos íngremes, que eram mal aproveitados, e resultavam em erosão. Senti pesar quando vi uma enorme voçoroca cortar um morro na fazenda vizinha à do meu avô.

Na adolescência presenciei o efeito de secas devastadoras que levaram à morte de gado. Provavelmente, aqueles foram anos de El Niño, que eu desconhecia na época. Como tem ocorrido até hoje na região, os pastos da fazenda de meu avô perderam o vigor e a renda era insuficiente para renová-lo. (Obs: em 2008 o Inpe e a Embrapa mapearam 11 milhões de hectares de pastos sujos na Amazônia, área equivalente a do estado de Sergipe). Meu avô ainda investiu na fazenda parte da herança que minha avó havia rebecebido do pai dela, mas a decadência e secas forçaram a venda da fazenda alguns anos depois, apesar da resistência do meu avô. Foi triste e angustiante acompanhar este declínio e mudança forçada. Felizmente, em 1988, meus pais venderam a terra no Maranhão após constatarem que era inviável manejá-la a distância e que o investimento não compensava.

Essas experiências na fazenda de meu avô impregnaram em mim uma profunda admiração pela natureza: suas belezas, diversidade, surpresas e  mistérios. Ao mesmo tempo, a observação da degradação ambiental e do colapso econômico estimularam em mim uma profunda inquietação sobre o desenvolvimento rural.

Em Castanhal, segui estudando e, a medida que crescia, me inquietava com outra situação que afetava a maioria dos brasileiros na década de 1980 – a inflação. Cada vez que os preços dos insumos que usávamos para os salgadinhos aumentavam, ficávamos na dúvida se conseguiríamos repassar o aumento para o preço final. Além do mais, como eu entregava parte das encomendas, ficava com a péssima função de comunicar aos clientes o aumento dos preços. Algum dia a economia brasileira iria se ajustar?

Em 1984, ao fim do ensino médio, eu não sabia o que iria fazer. Apenas sabia das minhas inquietações sobre a economia e meio ambiente. Tentei os vestibulares para economia e engenharia florestal em Belém. Fui aprovado em engenharia florestal, curso que felizmente abriu as portas para que eu entendesse melhor as inquietações ambientais e econômicas. Logo depois da graduação, participei da formação de um instituto de pesquisa, o Imazon, onde pude exercitar a busca por um desenvolvimento mais sustentável.

E você, quais experiências moldaram seus interesses profissionais e valores? Conte aqui nos comentários.

PS. Anos depois um estudo do Imazon e do Banco Mundial caracterizou  bem o ciclo que o meu avô e muitos que vieram para a Amazônia passaram – o boom colapso da economia rural.

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