O fazendeiro amazônico que votará em Marina

19/09/2014

Um fazendeiro do Pará me disse ontem que votará em Marina para presidente. Essa declaração pode ser surpreendente para muitos, já que quando ministra do meio ambiente Marina executou as medidas mais duras e efetivas contra o desmatamento Amazônia. A continuação destas medidas ajudou a reduzir em cerca de 80% o desmatamento.

Ele declarou que votará em Marina justamente porque ela tem a coragem e o conhecimento para fazer a coisa certa na Amazônia. Sim, existem fazendeiros na região que querem e podem fazer o que é certo – manejar melhor suas fazendas e produzir mais onde já está desmatado em vez de apenas aumentar a área desmatada. Segundo ele, Marina conhece profundamente os problemas regionais com base em sua experiência pessoal e por ter assessores que tem conhecimento científico e prático da região.

Daí, perguntei brincando se ele tinha coragem de confessar seu voto para seus ciclo de amigos. Ele disse que, em geral, o discurso de Marina tem sido bem recebido entre seus pares. E continuou falando, demonstrando como as pessoas cansaram da velha política e demandam algo novo. Segundo ele, os políticos tradicionais tanto no nível federal quanto regional tem chegado ao poder com base em acordos mercenários e daí ficam paralisados ou só atendem aos interesses de pequenos grupos. Ele acredita que Marina, por não fazer parte destes acordos, chegaria ao poder com mais liberdade para fazer o que é certo.

Esta conversa exemplificou bem a estatística de que 72% dos brasileiros estão insatisfeitos com a situação do país. A falta de avanço em questões chave como segurança, saneamento, saúde e educação acompanhados da escandalos de corrupção como o mensalão e o mais recente da Petrobrás esgotaram a paciência.

Chega de supostos acordos pela governabilidade que desgovernam o país.

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Os impactos ocultos da corrupção

11/09/2014

O mais novo escândalo da Petrobras tem chamado atenção pelo grande número de pessoas envolvidas e pelo volume de recursos. Novamente, empreiteiras fazem são atores chaves da corrupção.

Estes casos me põe a pensar o que poderia ser feito de benefício público com o dinheiro que é perdido pela corrupção. Uma estimativa das Nações Unidas é que a corrupção chegue a cerca de R$ 200 bilhões por ano. Isso significa que com menos de dois anos de corrupção seria possível custear todas as obras de saneamento básico que beneficiariam quase metade da população brasileira. Teríamos mais saúde, bem estar, capacidade de trabalhar e desenvolvimento econômico.

Porém, a corrupção resulta em outros efeitos extremamente negativos, mas que que são mais escondidos. Como a corrupção é baseada em percentuais das obras, os corruptos e corruptores preferem fazer grandes obras – maiores hidrelétricas, maiores estádios, etc. Esta distorção evita que o país busque ser mais eficiente – por exemplo, o corrupto não se interessa em investir em eficiência energética já que evitaria a construção de novas hidrelétricas, novas refinarias de petróleo, usinas termelétricas, etc. Duvido que seja por acaso que dentre as 16 grandes economias do planeta, o Brasil é o 15Além das perdas financeiras, esta ineficiência resulta em impactos ambientais gravíssimos como desmatamento, inundação de florestas, mais poluição, etc.

Enfim, além de nos deixar mais doentes e pobres financeiramente, a corrupçao estimula mais degradacao ambiental e desperdício de recursos naturais.

Parece que a corrupção nos deixa anestesiados e bobos também. Muitos da lista de acusados de serem beneficiários da corrupção na Petrobrás já estiveram presentes em outros casos. Alguns deles ou seus filhos estão indo bem nas pesquisas eleitorais.

Portanto, quem ainda não desistiu do Brasil vai ter trabalho duro pela frente se quiser que seus filhos e netos tenham uma vida melhor.

Uma das melhores armas contra a corrupcao é bloquear e retomar os bens roubados. O Banco Mundial e a OECD acabaram de lançar um relatório sobre as melhores práticas que pode nos inspirar.


O Brasil vai perder os bolsistas do programa Ciências Sem Fronteiras?

26/01/2014

Em 2013, viajei pelos Estados Unidos e Europa e fiquei impressionado com as iniciativas locais transformadoras das cidades.

Em um mundo globalizado, as cidades estão competindo para atrair investimentos e pessoas empreendedoras e capacitadas que formarão a base do desenvolvimento local. Para atrair tais pessoas, os lideres locais estão melhorando, ampliando ou revolucionando investimentos em transporte, segurança, cultura e ciência e tecnologia.

Uma das transformações mais impressionantes está ocorrendo em Nova Iorque.   Em 2010, a prefeitura lançou a iniciativa Applied Sciences NYC  para atrair investimentos em ciência e tecnologia.  Um dos pilares deste programa foi uma competição global para escolher a entidade que  receberia incentivos (a concessão de um terreno por 99 anos e US$ 100 milhões de um fundo municipal de investimento) para instalar um campus universitário focado em ciência e engenharia. O consórcio ganhador da competição, formado pela Universidade  Cornell e o Instituto de Tecnologia Technion-Israel, estão investindo US$ 2 bilhões no centro. Além disso, a prefeitura tem realizado convênios com universidade locais para fortalecer programas de ciência e tecnologia.

Ao mesmo tempo, Nova Iorque lançou um ambicioso programa de ampliação dos espaços públicos abertos. A meta é que todo habitante da cidade tenha área pública disponível a no máximo 10 minutos de caminhada. Nova Iorque também entrou no rol de outras cidades que integraram as bicicletas ao transporte público como Paris, Londres e Barcelona.

Além destes investimentos, vários países, estados e cidades estão usando propaganda e mudando regras para facilitar a imigração de trabalhadores qualificados. Ano passado, o governo alemão anunciou em revista de grande circulação no Brasil: Venha para a Alemanha. Seu filho virá de qualquer jeito.

Estas iniciativas respondem, entre outros, a necessidade de suprir o déficit de jovens qualificadas em regiões onde a população jovem tem diminuído por redução de natalidade e envelhecimento.

Comparar o que tenho visto em cidades de outros países com o Brasil é inevitável.O resultado desta comparação é uma mistura complexa. Primeiro, além de prefeitos ruins, chama atenção o fato de que os municípios têm relativamente pouco poder, pois o governo federal concentra a arrecadação e gestão dos recursos. Assim, os prefeitos ficam em grande parte subjugados as decisões dos governadores e  da presidência da república.

Segundo, a qualidade de vida de muitas cidades brasileira é sofrível pelo acúmulo de falhas de todos níveis do Poder Público. Os cartazes dos protestos do ano passado sinalizaram as angústias. Gastos excessivos e baixos investimentos levaram a inflação, inclusive dos transportes públicos. Além disso, a redução do IPI dos automóveis acelerou o aumento de engarrafamentos em cidades desprovidas de transporte público de qualidade. A polícia violenta e despreparada atiçou ainda mais os protestos.

A população gritou contra a tentativa de calar o Ministério Público (PEC 37) que luta contra a corrupção que diminui a quantidade e qualidade do investimento público em saúde,  segurança, educação e infraestrutura.

Os políticos tentaram apagar o incêndio dos protestos; por exemplo, a abandonar a ideia de enfraquecer o Ministério Público. Entretanto, eles parecem apostar que o povo vai desistir de melhorar o Brasil ou que não sabem o que fazer para melhorá-lo. Por exemplo,  o presidente do Senado voltou a voar em avião público para fins privados. Depois de ser flagrado, devolveu o dinheiro. Mas continua no poder. O Tribunal Superior Eleitoral editou resolução que limita o poder de investigação do Ministério Público nas eleições.

No Maranhão, como no resto do país, parte dos bandidos presos continua controlando o crime fora das prisões. A novidade no Maranhão foi a governadora dizer que seu estado tem ficado mais violento porque está ficando mais rico.

Diante deste quadro, é necessário refletir se em breve o Brasil vai começar a perder alguns dos seus jovens mais preparados para as cidades internacionais que estão trabalhando para atraí-los. Especificamente, estou curioso para saber se os bolsistas do programa Ciências Sem Fronteiras voltarão ao Brasil ou se serão seduzidos pela qualidade de vida das melhores cidades internacionais. Minha experiência recente indica que o Brasil vai ter que melhorar rapidamente se quiser tê-los de volta.

Em dezembro passado visitei meu filho em Glasgow (Escócia), onde ele é bolsista do Ciências sem Fronteiras. Durante uma das conversas, ele me perguntou se eu estava pensando em comprar um carro novo e se iria blindá-lo.

Essa pergunta, surpreendente para mim, fazia sentido para ele que agora está vivendo em uma cidade onde a taxa de homicídios é 15 vezes menor do que em Belém, onde moro. Nos últimos seis meses, enquanto usufruía da sensação de viver em lugar seguro, ele continuou ouvindo os casos de colegas que são assaltados em Belém.

De volta a Belém, em uma semana ouvi dois casos de pessoas que tinham se livrado de balas por terem os carros blindados. Lembrei do meu filho. Ele voltará ao Brasil em setembro para concluir a graduação. Depois terá que ficar no país o tempo equivalente ao período da bolsa de estudos. Porém, sinto que se a violência no Brasil continuar como está, ele não hesitará em  deixar o país depois de cumprir esta obrigação.

Como este ano teremos eleições, gostaria de pensar que o Brasil elegerá políticos comprometidos em melhora nossa qualidade de vida. Assim, seriamos capazes de manter aqui nosso jovens mais preparados.

Embora os políticos não tenham demonstrado que mudaram por causa dos protestos, surpresas podem acontecer. Desde o fim dos grandes protestos, manifestações menores tem continuado em todo o Brasil. A Copa do Mundo e as eleições provavelmente trarão o povo para a rua novamente.

Espero que uma consequência da pressão popular seja a transferência de mais poderes e recursos dos governos estaduais e federal para os  governos municipais. É mais fácil o povo cobrar dos prefeitos e vereadores do que pressionar os políticos em Brasília e nas capitais.


A corrupção e o desabafo do taxista

04/05/2013

Há uma semana, chovia a noite e peguei um taxi para ir ao cinema em Belém. O trânsito, como tem sido comum, estava muito lento. Depois de 20 minutos no engarrafamento, perguntei ao taxista se não haveria um caminho alternativo. Daí, ele começou um longo desabafo sobre como a corrupção afeta sua vida.

Ele disse que o trânsito estava continuamente engarrafado em Belém e que não havia alternativa. Depois que o governo municipal começou e não terminou a obra do sistema de ônibus rápido (BRT) na principal avenida da cidade, o trânsito fica engarrafado na saída da cidade e consequentemente trava o restante.

Aqui é preciso explicar para quem não reside em Belém. Em 2012, a prefeitura fechou duas pistas da principal avenida da cidade para construir o BRT. Por causa de irregularidades e má administração a obra está paralisada. O novo prefeito, está tentando retomar a obra que continua parada.

De volta ao taxista. Exaltado, ele prosseguiu desabafando:

  • As eleições tem sido apenas uma troca de ladrões na cadeira de prefeito.
  • Com um trânsito caótico, ele tem ficado estressado. As vezes, preso no trânsito, ele tem vontade de largar o carro e sair correndo.
  • Quando chega tarde em casa, não tem paciência em ouvir a família que quer discutir os problemas familiares.
  • Por causa dos engarrafamentos, acaba ficando cerca de 15 horas por dia na rua e não tem dado a atenção necessária aos filhos.
  • Antes, ele levava os filhos a escola no táxi antes de seguir para o trabalho. No caminho, era uma festa com os filhos. Como agora tem que sair mais cedo, deixou de levar os filhos que vão depois de ônibus. O filho reclama da falta de convivência.
  • Se continuar assim, ele acha que pode ter um infarto. Por isso, está pensando em mudar de profissão.

Depois de 40 minutos, chegamos ao cinema. Sem engarrafamento, seriam 10 minutos.

Fiquei imaginando os milhares de desabafos que os motoristas e passageiros de Belém gostariam de fazer sobre como os engarrafamentos impactam suas vidas.

Que bom seria se os políticos circulassem pelas ruas fora do período eleitoral para ouvir estes desabafos. E depois, sensibilizados, mudassem suas práticas.


Como aumentar os salários públicos sem greves?

15/09/2012

Nos últimos meses os brasileiros sofreram e ainda sofrem com um mal antigo: greve de funcionários públicos por melhores salários. Eu até acho que muitas classes de funcionários públicos deveriam receber bem mais, como os professores universitários e fiscais do Ibama.

Porém, greves e “operações padrão” prejudicam aqueles que os funcionários deveriam tratar bem: o povo que paga seus salários. As greves são injustas porque os contribuintes são obrigados a pagar os impostos. Uma vez que pagamos, é injusto ter de pagar pelo serviço privado quando este for disponível. Além do que, muitas vezes, o serviço é monopólio estatal.  Pior ainda, os mais pobres não tem recursos para pagar duas vezes pelo mesmo serviço.

Os governantes tem resistido a atender todas as reinvindicações dos funcionários sob a alegação de que o orçamento é insuficiente.  A população por sua vez já não aceita mais o aumento de impostos.

Se alguns merecem aumentos, mas as greves são injustas e aumentar impostos é inaceitável, os dirigentes e funcionários públicos deverão inovar para lidar com esta situação.

O único caminho é aumentar  a eficiência da máquina pública. Gostaria de ver os sindicatos de funcionários públicos aplicarem as seguintes abordagens para conseguir aumentar os salários:

  1. Aplicar a gestão de desempenho.Meu irmão que é professor em uma universidade federal disse que o desempenho dos auxiliares administrativos é tão baixo que são necessários dois para fazer o serviço de um. Ninguém nem tenta lidar com a situação dada a famosa estabilidade no emprego. A ineficiência também assusta nos altos escalões. No Brasil se faz piada quando um governante indica um ministro que confessa não entender do assunto que vai gerir. Se os sindicatos demandassem e apoiassem programas de gestão de desempenho que incluíssem a demissão de funcionários e indicados políticos ineficientes, sobraria recursos para aumentar o salário dos funcionários eficientes.
  2. Criar programas de combate a corrupção.A FIESP – Federação da Industria de São Paulo estima que a corrução no Brasil atinge cerca de 50 a 80 bilhões de Reais por ano. Os sindicatos de servidores poderiam ajudar a organizar em cada órgão público comissões contra este enorme desperdício. Estas comissões seriam encarregadas de receber denúncias e encaminhar soluções. Imaginem se os funcionários conseguissem pelo menos reduzir metade da corrupção?

Uma vez que estas medidas fossem aplicadas, seria fácil documentar os efeitos na redução de custos e melhor prestação de serviços. Assim, os sindicatos poderiam conseguir apoio da população para suas demandas de melhores salários e condições de trabalho. Melhor ainda, seria possível reduzir os impostos que no Brasil são um dos mais altos no mudo.


A frustração do meu filho e o julgamento do mensalão

04/08/2012

Era tarde da noite e o meu filho de 18 anos entrou em uma estação para pegar o ultimo trem que o levaria para casa. Porém, o trem já havia passado. Ele então se dirigiu a um policial para saber se seria perigoso seguir a pés até a casa. O guarda lhe disse que seria seguro, mas se ofereceu para levá-lo.  O meu filho aceitou a carona e chegou tranquilamente em casa.

Esse evento foi um dos que marcaram o mês de julho de 2011 que o meu filho passou estudando inglês em Vancouver, no Canadá. Ele voltou ao Brasil impressionado, entre outros, com a segurança, a qualidade do transporte público, a limpeza, a qualidade dos parques públicos e o preço mais baixo de diversos produtos. Enfim, ele pode comparar com sentimentos e observações diretas o que as estatísticas  revelam em números. Nossos índices socioeconômicos estão muito abaixo dos de países desenvolvidos.

Antes de ele ir para o Canadá, minha esposa estava preocupada se o nosso filho de 19 anos se adaptaria bem ao país. Eu respondi que o risco era ele não querer voltar. De fato, quando voltou, ele nos disse que gostaria de trabalhar no Canadá após sua graduação no Brasil, prevista para 2014.

Em julho deste ano, meu filho retornou a Vancouver para retomar seus estudos em inglês. Desta vez, mais maduro, ele aprofundou suas observações sobre a vida em países mais desenvolvidos que o Brasil, tanto pelas experiências locais quanto por conviver com jovens de outros países, como a Alemanha. Ele voltou ainda mais frustrado com o Brasil e considerando a possibilidade de concluir seu curso universitário fora do país.

Compreendi a frustração do meu filho. Desde que comecei a refletir sobre o Brasil, lá pelos meus 15 anos, em 1982, sinto uma certa frustração crônica com tantas mazelas, crises econômicas, corrupção e injustiças.  Para continuar no Brasil converto  a frustração em esperança de que podemos melhorar.  Tenho conseguido renovar minha esperança com alguns avanços como a redemocratização, o impedimento de Collor, o controle da inflação,  alguns ganhos ambientais como a criação de áreas protegidas e a redução do desmatamento.

Apesar destes progressos, males como a violência, a desigualdade social, a corrupção crônica, o caos e a degradação das cidades são massacrantes para quem consegue comparar o Brasil com quem atingiu melhores índices de desenvolvimento.

O desespero pode ser ainda maior quando observamos que alguns dos avanços podem ser desfeitos como as ações do Congresso para enfraquecer as leis ambientais e para tirar o poder de investigação do Ministério Público. Além disso, há sinais de que um modesto progresso econômico recente levou a certa acomodação. Sobre isso, um alto executivo de um banco multilateral me disse recentemente.

 O Lula foi muito inteligente: com as bolsas sociais comprou os mais pobres, com as bolsas empresários (empréstimos altamente subsidiados de bancos públicos) comprou a elite econômica.

Assim, uma parte expressiva da população parece satisfeita por termos chegado no meio do caminho.

Diante deste cenário cinza, o julgamento do mensalão é a minha atual fagulha de esperança. A condenação dos acusados poderia inibir praticas que estão na raiz de nosso desenvolvimento medíocre. E eu poderia dizer ao meu filho que há esperança. Ele poderia ir estudar e até morar fora do Brasil por opção, não pela frustração com o Brasil.

Se a justiça falhar mais uma vez neste caso emblemático, será um duro golpe na esperança de que o Brasil pode continuar melhorando.

P.S: Enquanto eu esboçava este artigo, li neste blog mais um exemplo de como o Brasil tem se acostumado ao horror.


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