Madeireiros exploraram ilegalmente R$ 590 milhões de reais de madeira de Unidades de Conservação na Amazônia entre 2008 e 2015

09/04/2016

O enriquecimento ilícito e a degradação ambiental continuarão se governos estaduais federal não investirem na proteção destas áreas.

Sem proteção adequada Unidades de Conservação amazônicas vêm sofrendo exploração ilegal de madeira, desmatamento e a ocupação ilegal. Entre 2008 e 2015, 467 mil hectares foram desmatados nas UCs da região. Pesquisa publicada pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) hoje estima que os madeireiros ilegais retiraram um volume de madeira equivalente a R$ 590 milhões pé na floresta. Os danos ambientais também tem sido enormes, segundo as estimativas do Imazon: 233 milhões de árvores derrubadas e queimadas e 8,3 milhões de aves e 271 mil macacos mortos ou desalojados.

O estudo demonstra que os governos estaduais e federal não têm planos consistentes para parar esta destruição. Os pesquisadores chegaram a esta conclusão avaliando as respostas dos órgãos ambientais as demandas feitas pelos Tribunais de Contas da União e dos nove Estados da região amazônica por acoes de implementação das Unidades de Conservação. O estudo revela que apenas 4% das ações propostas pelos governos para revolver os problemas eram planos consistentes, ou seja com metas, prazos e atividades básicas. No caso federal,12,5% das ações propostas pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) eram completas, enquanto que o Maranhão sequer apresentou um plano

Os pesquisadores recomendam que os governos estabeleçam metas claras vinculadas aos objetivos essenciais das UCs para organizar os esforços necessários e atrair parceiros. As metas deveriam visar estancar os danos ambientais e patrimonial e promover o desenvolvimento regional, como segue:

Responsabilizar gestores por danos ao patrimônio público. Os Tribunais de Contas, os Ministérios Públicos e o Judiciário devem agir de forma mais contundentes para garantir a proteção do patrimônio público, incluindo medidas para responsabilizar diretamente os gestores por suas ações e omissões que resultem em danos às UCs. As áreas prioritárias para combater os danos seriam aquelas que têm sofrido com ocupação irregular e exploração ilegal de recursos, como a madeira.

Zerar o desmatamento nas Unidades de Conservação. Zerar o desmatamento e a degradação dentro de UCs até no máximo 2017 seria uma meta suficientemente clara e factível para mobilizar e focar os esforços. Elis Araújo, pesquisadora do Imazon diz que “a maioria do desmatamento está concentrada em 50 UCs na região, as quais deveriam receber maior atenção. Além disso, a região em torno das grandes obras de infraestrutura deveria ser foco de ações preventivas, o que não vem ocorrendo devidamente nos projetos já em andamento”.

Promover o uso sustentável das UCs. Para aumentar o interesse local na integridade das UCs é importante promover o uso sustentável dessas áreas, o que inclui atividades de turismo, pesquisa científica e manejo florestal. Por exemplo, a visitação aos parques nacionais do país pode gerar anualmente até R$ 1,8 bilhão para as regiões onde estão localizados. Paulo Barreto, outro autor do trabalho, recomenda que os “ governos estaduais e federal devem rapidamente apresentar planos para utilização das UCs com maior potencial de benefícios para a população regional. Para acelerar o uso das UCs é possível adotar as Parcerias Público-Privadas (PPP), que garantem agilidade à prestação de serviços e requerem baixo investimento do poder público.” “As PPPs serão essenciais em um quadro de crise econômica prolongada que parece ser o cenário mais provável para os próximos anos”, lembra Paulo Barreto.

Sobre as Unidades de Conservação. Criar as UCs tem sido uma das estratégias mais eficazes para proteger a floresta amazônica, seus benefícios e os direitos de uso de populações da região. Atualmente, as UCs somam aproximadamente 114 milhões de hectares ou 27% do território da Amazônia brasileira.

O Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) fundado em 1990, sediado em Belém-PA, visa promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia por meio de estudos, apoio à formulação de políticas públicas e disseminação estratégica de informações. Desde 2007 o Imazon é qualificado como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Para mais informações: www.imazon.org.br

Acesso o estudo Quais os planos para proteger as Unidades de Conservação vulneráveis da Amazônia?


Quando o governo quer, ele faz!

11/07/2015

“Quando o governo quer, ele faz!” Quem me disse isso foi um comerciante e fazendeiro no sul do Pará em 2009. Ele se referia à Operação Boi Pirata que pela qual o governo federal confiscara e leiloara 3.300 reses de um fazendeiro que ocupava ilegalmente uma Estação Ecológica na região. Logo depois, o desmatamento naquela região caiu cerca de 70%.

O fazendeiro que perdeu o gado não foi pego de surpresa. Ela havia sido multado anos atrás e fora alertado que devia retirar o gado da Unidade de Conservação. Mas ele confiava na impunidade. Quando o desmatamento começou a aumentar no fim de 2007, o governo decidiu endurecer e confiscou e leiloou o gado em 2008.

Eu e o comerciante estávamos em uma reunião onde fazendeiros da região, governo e ONGs iriam discutir como avançar na regularização ambiental. Ele confessou que aquele encontro só era possível porque o governo demonstrara com o confisco que os crimes ambientais eram inaceitáveis.

Porém, desde 2008 o poder público tem sido inconsistente. Às vezes favorece o desmatamento e às vezes combate o desmatamento. Favoreceu o desmatamento ao reduzir Unidades de Conservação, ao licenciar grandes obras de infraestrutura sem as salvaguardas ambientais e ao anistiar parte do desmatamento ilegal com mudanças no Código Florestal em 2012. Neste contexto, nos últimos três anos foram desmatados cerca de 500 mil hectares por ano, sendo a maioria ilegal.

Em outubro de 2014 a operação Castanheira demonstrou novamente que quando o governo quer, é poderoso contra o desmatamento. A Polícia Federal prendeu no oeste do Pará uma quadrilha especializada em ocupar e vender terras públicas e em explorar ilegalmente de madeira. Como no caso da Operação Boi Pirata, o líder do grupo já havia sido multado várias vezes e algumas das áreas estavam embargadas. Mas ele continuava a ocupar e vender terras sem pagar as multas ambientais.

A novidade da Operação Castanheira foi a cooperação entre Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público Federal (MPF) para processar os membros da quadrilha por outros crimes como associação para o crime, lavagem de dinheiro, sonegação de imposto, entre outros. As penas cumulativas destes crimes podem ultrapassar 50 anos de prisão segundo o MPF.

Esta semana, uma série de reportagens do Jornal Hoje, da TV Globo, permitiu entender melhor a quadrilha ao revelar conversas telefônicas de seus membros. Eles sabiam que ocupavam área protegida, confiavam na impunidade, apostavam que o governo iria reduzir a Unidade de Conservação e, por isso, seria ainda mais lucrativo desmatar e vender a terra depois da redução da área; pagavam informante para saber quando o governo agiria. Mas quando o poder público quis, tudo deu errado para a quadrilha. Vários estão sendo processados e o líder continua preso. Segundo o Ibama, logo após as prisões o desmatamento caiu fortemente.

Porém, apesar deste caso promissor, o governo ainda dá sinais de vacilo contra o desmatamento, mesmo o ilegal. Há duas semanas, a presidente Dilma declarou, ao lado do presidente Obama, em Washington, que o Brasil zerará o desmatamento ilegal até 2030. O governo já sabe como combater o desmatamento. Portanto, nao precisa esperar até 2030.

O comerciante e fazendeiro no sul do Pará já sabe que quando o governo quer, ele faz. Falta a presidente decidir se quer.


A tragédia do desmatamento ainda continua

01/12/2012

O governo federal estimou que o desmatamento entre 2011 e 2012 foi de 465,6 mil hectares. Deve-se comemorar, pois foi uma queda de 27% em relação ao ano anterior e foi a taxa mais baixa desde o início do monitoramento em 1988.

Entretanto, a continuação do desmatamento ainda é uma tragédia, pois é um grande desperdício, mata milhões de árvores e animais e emite poluição duas vezes mais que todos os carros circulando no Brasil.

Para entender o que o desmatamento ainda significa e o que ainda precisa ser feito veja apresentação com gráficos e fotos aqui.


As apostas de quem continua desmatando ilegalmente

21/09/2012

Nos últimos anos o desmatamento caiu de cerca de 28 mil km2 para 6.5 mil km2. Isso foi possível por várias medidas de controle e a criação de áreas protegidas, além da queda do preço de mercadorias agrícolas.

Entretanto, impressiona que apesar das medidas de controle o desmatamento ainda não tenha chegado a próximo de zero. Nos últimos meses o desmatamento deu um salto conforme os dois sistemas mensais de monitoramento (SAD do Imazon e Deter do Inpe).

Como será que pensa alguém que continua desmatando? Certamente ele decide baseado em apostas de que vai conseguir obter algum benefício ao final. A seguir as apostas prováveis de quem desmata ilegalmente:

  1. O fiscal não vai chegar.
  2. Se o fiscal chegar, posso corrompê-lo.
  3. Se  o fiscal for incorruptível, serei multado mas não pagarei a multa (pois os processos administrativos e judiciais demoram) e eles serão incapazes de fiscalizar se continuo usando a área desmatada.
  4. Haverá comprador para meu produtos como frigoríficos e/ou grandes comerciantes de grãos. Obs: Segundo representantes do setor, cerca de 30% a 40% do abate de gado é clandestino.
  5. Conseguirei vender meu gado usando o Cadastro Ambiental Rural (CAR) de outro imóvel que está cumprindo a lei. Assim posso me livrar da restrição de alguns frigoríficos de só comprar de quem está registrado no CAR.
  6. Meus deputados vão conseguir aprovar anistia para quem desmatou ilegalmente.
  7. Meus deputados vão aprovar uma lei que permitirá que eu regularize a posse da terra pública que eu ocupei, mesmo eu tendo desmatado ilegalmente.
  8. O Congresso e a Presidente vão reduzir a Unidade de Conservação que estou ocupando. Obs: Eles já fizeram isso outras vezes.

Será que empresas e o poder público vão quebrar as expectativas de quem desmata ilegalmente?


Código florestal: da competição a cooperação

21/05/2012

Até o dia 25 de maio a presidente Dilma terá que decidir o que fazer com o projeto aprovado pelo Congresso de reforma do Código Florestal. O projeto foi duramente criticado pelas duas principais associações cientificas do pais, por juristas, líderes empresariais e ambientalistas. Mais do que isso, até 21 de maio as 8:50 horas, 1.833.237 haviam assinado uma petição demandando que a Presidente vete o projeto de lei.

Por que Congresso aprovou um projeto tão rejeitado? Seria possível trilhar outro caminho?

O projeto é ruim porque partiu de uma intenção negativa: livrar quem descumpriu o código florestal de suas responsabilidades. Para tanto, propõe anistias que possibilitariam manter desmatadas áreas que deveriam ser recuperadas (como as margens de rios). Além do mais, essa abordagem poderia estimular novos desmatamento por desmoralizar o cumprimento de regras.

O código é de 1965, mas passou a ser aplicado mais intensamente nos últimos anos. A aplicação de penas mais duras ocorreu pelo agravamento das condições ambientais (mais enchentes, deslizamentos, aquecimento global) e pela criação de meios mais eficazes como leis mais duras (lei de crimes ambientais) e monitoramento mensal do desmatamento por satélite.

A eficácia da aplicação das leis ficou clara com a redução de cerca de 80% do desmatamento na Amazônia entre 2005 e 2011. Estudos recentes tem demonstrado que metade desta queda resultou da fiscalização e da criação de áreas protegidas; enquanto que metade resultou da queda dos preços de produtos agrícolas no período.

Pressionados pela aplicação das leis, alguns líderes do setor e parlamentares apostaram que poderia desmontar as regras de proteção ambiental. As táticas usadas nas discussões sobre a reforma indicam que estes atores consideraram:

  1. Que o interesse ambiental no Brasil é diminuto e poderia ser ignorado.
  2. Que o interesse ambiental é importante, mas é difuso. Assim, um projeto contra a maioria poderia ser aprovado no congresso sem um custo político significativo.
  3. Que o interesse ambiental é importante, mas seria possível fazer crer via propaganda que um projeto ruim atende aos interesse de proteção.
  4. Que seria possível convencer a maioria de que há outros interesses mais nobres do que a proteção ambiental como alimentar os brasileiros e o mundo.
  5. Que é injusto que somente o setor se responsabilize pela proteção.

A rejeição do projetos por cientistas, juristas, ambientalistas e por centenas de milhares de indivíduos revelam que a aposta do Congresso tem sido problemática. A presidente da república também parece concordar com esta avaliação. Nos últimos dias há indícios de que ela está considerando vetos ao projeto, seja parcial ou integral.

O problema é que o veto é insuficiente. É necessário um código florestal e outras políticas que além de punir infratores, premie o bom desempenho ambiental. Seria mais provável conciliar produção e conservação se os vários setores envolvidos cooperassem.  Mas seria possível cientistas, ambientalistas, operadores do direito e produtores rurais colaborarem? Várias experiências de campo recentes demonstram que sim.

No Mato Grosso, o Instituto Socioambiental está trabalhando com produtores rurais para reflorestar margens de rios desmatados. Em Paragominas no Pará, o Sindicato de Produtores Rurais, o Imazon (instituto de pesquisa onde trabalho), a TNC (uma ong ambiental), pesquisadores da USP (Universidade de Sao Paulo) e da UNESP (Universidade Estadual Paulista) estão trabalhando para melhorar a produtividade da pecuária e para promover a restauração de áreas desmatadas ilegalmente.

O Ministério Público Federal no Pará está trabalhando com os governos estadual e municipais, líderes do setor rural, representantes de frigoríficos e ongs para reduzir o desmatamento e para iniciar a recuperação de áreas degradas. Para tanto, além de pressionar pelo cumprimento das leis, este grupo vem trabalhando para criar as condições favoráveis para tanto como a simplificação das regras de licenciamento e a regularização fundiária. Este trabalho levou ao aumento do número de imóveis registrados no Cadastro Ambiental Rural de 400 para mais de 40 mil entre junho de 2009 até o momento. Entre 2010 e 2011, o desmatamento no Pará caiu 24%, enquanto que no mesmo período cresceu 29% no Mato Grosso e 100% em Rondônia (análise aqui).

Em conversas com os envolvidos nestes projetos percebo que todos reconhecem que a preocupação ambiental é legítima e duradoura; ou seja, o consumidores querem produção limpa independentemente das leis. Além do mais, as soluções dependerão de cooperação que gera inovação. A cooperação envolve o debate de ideias diferentes para atingir objetivos comuns, ao contrário de querer ignorar ou sobrepujar os participantes do processo.

Felizmente, entidades privadas e públicas tem apostado na cooperação, financiando os projetos citados acima como o Fundo Amazônia, o Fundo Vale, a Dow AgroScience e a Fundação Gordon & Betty Moore.


O anti-ambientalismo rural é um “tiro no pé” do Brasil

05/11/2011

Entre 1995 e 2010 agropecuária foi responsável em média por aproximadamente 6% do PIB brasileiro. Apesar da importância do setor, o agronegócio permanece vulnerável em áreas críticas para garantir sua competitividade. Destacarei aqui a fraca gestão ambiental dos imóveis rurais.

Muitos fazendeiros desmataram suas terras ilegalmente levando a perda de solo, deslizamento de terras, entupimento de rios e ameaça de extinção da vida silvestre. Algumas destas áreas continuam ocupadas, mas produzem muito pouco. A pecuária é o setor onde este problema é mais grave. São enormes áreas abertas com pouco gado. Segundo a Embrapa e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), só na Amazônia eram 11 milhões de hectares de pastos de baixa produtividade em 2008 – ou o equivalente a cinco vezes o Estado de Sergipe.

A preocupação nacional com a gestão ambiental das fazendas é antiga, pois desde 1938 existe um código florestal que foi atualizado em 1965 com as principais regras atuais. Muitos fazendeiros continuaram desmatando ilegalmente confiantes na impunidade. Entretanto, a medida que os problemas ambientais cresceram, a fiscalização e punições aumentaram e o mercado também começou a boicotar produtos de áreas que foram desmatadas ilegalmente.

Nesta década a preocupação ambiental se agravou por causa das mudanças climáticas. No Brasil a ligação da agropecuária com as mudanças climáticas é especialmente relevante já que em 2005 as mudanças do uso do solo e florestas (que inclui desmatamento) contribuíram com aproximadamente 58% das emissões dos gases que causam o efeito estufa (resumo aqui). É uma contribuição desproporcionalmente negativa: gerar 6% do PIB produzindo quase 58% das emissões. Por isso, o grande foco da Política Nacional de Mudanças do Clima em reduzir o desmatamento.

Diante da pressão ambiental, alguns líderes rurais passaram a dizer que o Brasil pode aumentar a produção agropecuária sem derrubar uma árvore sequer.  Porém, estes mesmos líderes continuam atuando para enfraquecer a gestão ambiental o que resultará em aumento de desmatamento. Duas medidas em curso são especialmente preocupantes.

Mudanças no código florestal. Em maio deste ano a Câmara de Deputados aprovou uma proposta (Projeto de Lei 1.876/1999) de mudança do código florestal que tem sido muito criticada por cientistas, ambientalistas e juristas. Segundo as duas principais associações científicas do país (Academia Brasileira de Ciências – ABC e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC), as propostas não tinham base científica e aumentam riscos. Juristas argumentaram que as vantagens para regularização e anistias estimulariam novos desmatamentos, já que o prazo de adesão para a regularização pode ser prorrogado indefinidamente e as propriedades que aderirem ficarão livres de fiscalização (MPF 2011, G1 2011).

O projeto está sendo analisado no Senado, mas até o momento não há indicações de que será substancialmente melhorado. A ABC e SBPC, que contam com pesquisadores da Embrapa (o principal centro brasileiro de pesquisa agropecuária), continuam criticando o relatório da comissão de Agricultura e Ciência e Tecnologia (veja aqui as críticas).

Redução de áreas protegidas. Vários políticos e empresários tem agido para reduzir o tamanho e/ou o grau de proteção de áreas protegidas. Estas iniciativas visam legalizar a ocupação ilegal já existentes ou favorecer a ocupação futura. Somente na Amazônia, até 2010 existiam 37 dessas iniciativas atingido 48 Áreas Protegidas. Até julho de 2010, 29 áreas haviam sido suprimidas totalizando 49.506 km2 e outras 18 ainda estavam sendo alvo de ações para redução ou extinção de 86.538 km2. Ver estudo aqui.

Há evidências de que a expectativa de aprovação das mudanças no Código Florestal e outras mudanças já vêm estimulando novos desmatamentos na Amazônia.  O Imazon identificou um aumento de 9% no desmatamento da Amazônia entre agosto de 2010 e julho de 2011 em comparação ao mesmo período do ano anterior (Ver análise aqui). Segundo o secretário de meio ambiente de Mato Grosso, os proprietários rurais desmataram mais porque esperam ser anistiados.

O aumento do desmatamento, fruto do anti-ambientalismo rural, tenderá a ser um “tiro no pé” do Brasil. Além dos danos ambientais, poderá resultar em barreiras comerciais. Por exemplo, nos próximos anos os produtores europeus podem perder partes de seus subsídios já que seus governos terão que realizar cortes em seus orçamentos para lidar com a crise econômica. Para compensar estas perdas eles poderão pressionar para que os governos europeus criem barreiras ambientais e/ou sanitárias contra produtos importados. Produtos brasileiros manchados pelo desmatamento são fortes candidatos a encabeçar a lista de produtos barrados.

Portanto, para garantir a importância da agropecuária o Brasil deverá barrar as medidas que podem facilitar o desmatamento como mudanças indevidas do código florestal e a redução de áreas protegidas.  Para tanto, as autoridades públicas deverão ouvir mais os juristas e cientistas e enfrentar os interesses privados de parte dos líderes rurais.

Coincidentemente, enquanto eu escrevia este artigo encontrei o anúncio de um seminário que ocorreu esta semana organizado pela revista The Economist – Brasil em 2022: Ordem ou Progresso? Os organizadores buscaram avaliar se em 2022 o Brasil teria resolvido alguns de suas principais barreiras ao progresso social. A revista pergunta: terá o Brasil enfrentado os principais grupos de interesse que se beneficiam da situação atual, tais quais os grandes proprietários de terra, sindicatos e empresas que se beneficiam de altas barreiras de entrada? Ou o Brasil tratará apenas marginalmente dos problemas e perderá sua chance?

Enfim, até os mais liberais econômicos enxergam que parte do setor rural busca apenas satisfazer seus interesses privados pondo em risco o futuro do país. O Brasil tem coragem de enfrentá-los?


Vamos ocupar as Unidades de Conservação da Amazônia para protegê-las.

12/09/2011

As manchetes sobre a Amazônia tendem a ser deprimentes, envolvendo violência e destruição ambiental.  Que tal tornar a região fonte de aprendizado, diversão, aventura e desenvolvimento para empresários, estudantes e comunidades locais?

As Unidades de Conservação (UCs) na Amazônia têm sido uma das formas mais eficazes de proteger a biodiversidade da região e de garantir o direito de uso de recursos naturais de populações tradicionais da região (como seringueiros e castanheiros). Porém, várias das UCs estão sendo destruídas e sob risco de degradação e destruição. A degradação e destruição envolvem exploração ilegal de madeira, garimpagem e desmatamento (incluindo a queimada) para a agropecuária.

Até novembro de 2009 eu e minha colega Elis Araújo, documentamos iniciativas de empresários e políticos para reduzir a proteção legal das UCs por meio de ações judiciais e dos legislativos que aprovam leis para reduzir o tamanho das áreas ou reduzir o grau de proteção ou simplesmente extinguir a área. Até julho de 2010, tais iniciativas resultaram na supressão de quase 5 milhões de hectares de outros 8,7 milhões continuavam sob risco (processos judiciais e legislativos em trâmite).

As falhas de proteção ocorrem pela falta de investimentos ou de gerenciamento para garantir a implementação completa das UCs. A implementação envolveria preparar um plano de uso das áreas (pesquisa, turismo, exploração sustentável de produtos florestais), contratar pessoal e instalar vigilância permanente nas áreas.

Sem um plano de uso, o potencial de gerar receitas com a exploração dos recursos naturais e do turismo não se realiza e agrava a percepção local de que as UC são inúteis. A ausência de autoridades, de visitantes e trabalhadores no local facilita a ocupação e a exploração ilegais.

Os debates sobre como garantir a implementação das UC tendem a esbarrar no argumento de que faltam recursos e pessoal. Porém, creio que seria possível usar a cooperação e financiamentos alternativos para garantir a ocupação protetora das UCs.

Os gestores das UCs e o setor privado poderiam criar programas de estágios e residência para atrair estudantes universitários que ajudariam no planejamento e implementação das UCs.

Como a gestão de uma UC tende a ser complexa, haveria oportunidades para a participação de alunos de várias áreas. Estudantes das ciências da terra ajudariam nos aspectos biofísicos (inventários de biodiversidade, solos, hidrografia, cartografia, etc.). Futuros profissionais das humanidades ajudariam a formar o conselho consultivo das áreas, a negociar a resolução de conflitos e os planos de uso, a criar as bases para a regularização fundiária (entrevistas, mapeamentos, verificação documental), etc. Grupos de todas as áreas de conhecimentos (incluindo administradores, turismólogos, economistas, agrônomos, engenheiros florestais, etc.) ajudariam a elaborar planos de negócios sustentáveis para as UCs e para as comunidades ao redor.

Os engenheiros (civis, navais, de produção, etc.) exercitariam suas habilidades no desenho e implementação da infra-estrutura e logística. Equipes multidisciplinares poderiam avaliar e propor regras e procedimentos mais eficientes para a preparação e implementação dos planos de manejo.

Alunos da área de saúde assistiriam as equipes envolvidas no trabalho e também moradores das UCs e de seus arredores. Alunos das comunicações (jornalistas, publicitários, cineastas, fotógrafos) documentariam e divulgariam a jornada coletiva e ajudariam os outros alunos a documentarem suas experiências pessoais. Imagine a riqueza do que seria produzido em vídeos, blogues, livros, fotografias, etc.  Estudantes de nutrição e de culinária explorariam como usar os ingredientes locais para alimentar as equipes e criar novos pratos regionais.

Estudantes do ensino fundamental e médio das comunidades locais poderiam também participar como guias, colaboradores e recebendo treinamento dos universitários e professores envolvidos nos projetos.

Militares das forças armadas poderiam contribuir com a logística, segurança e treinamentos de sobrevivência na floresta. Enfim, a lista de oportunidades para engajamento é imensa.

Tenho certeza de que este tipo de experiência marcaria a vida da maioria dos participantes. Alguns voltariam a trabalhar na região após a graduação e outros levariam lições valiosas para onde quer que venham a trabalhar. Minhas certezas são baseadas em observações de estudantes americanos e brasileiros que participaram de programas similares (Peace Corps e Projeto Rondon).  Eles têm um entendimento muito mais profundo de problemas relacionados ao desenvolvimento sustentável do que outros estudantes e profissionais.

Por que e como empresas deveriam participar? As empresas que pagam compensação ambiental* aos órgãos ambientais deveriam estimular este tipo de arranjo para garantir que os recursos sejam aplicados eficientemente – atualmente, parte do dinheiro pago nem sequer é gasto. Além disso, outras empresas poderiam contribuir com estes programas como parte de suas estratégias de responsabilidade socioambiental e de marketing.  Além de contribuir com dinheiro, elas poderiam oferecer aos seus executivos um período sabático nas UCs. Tais profissionais certamente trariam muita experiência para os estudantes e comunidades locais e também poderiam gerar novas oportunidades de negócios para suas empresas com base nestas experiências.

Em resumo, em vez de manchetes tristes, a Amazônia poderia ser a fonte de alegria, conhecimento e desenvolvimento sustentável por meio da colaboração entre governos, academia, estudantes, comunidades locais e empresas.

 

*Empresas que licenciam empreendimentos causadores de danos (por exemplo, pela construção de uma hidrelétrica ou a operação de uma mina) devem pagar a compensação ambiental.


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