A geração que pode se salvar

30/01/2016

Há duas semanas, Gabriel, meu filho de 23 anos, se formou em engenharia de produção. Como muitas famílias no Brasil, a minha comemorou. Mas sei que muitas famílias estão apreensivas por causa da crise econômica e política brasileira que contribuiu para o fim de 1,5 milhão empregos no país em 2015 e que cria enormes incertezas sobre o futuro.

Além da crise brasileira, estive pensando em outra mais complicada e duradoura: a crise climática. No dia em que Gabriel recebeu o seu canudo, cientistas anunciaram que 2015 foi o ano mais quente desde que começaram as medições de temperatura. Esse recorde agrava a tendência que vem sendo registrada. O planeta está com febre devido as formas de produção e consumo que adotamos, especialmente nos últimos anos 80, incluindo queimar combustíveis fósseis para o transporte e geração de energia e intensificar o desmatamento.

O planeta febril gera consequências. Desastres climáticos como secas severas, tempestades intensas, enchentes históricas e enormes ondas de calor triplicaram no mundo entre 2010 e 2014, em relação à primeira metade da década de 1980. Especialistas apontam que secas prolongadas tem estimulado conflitos e migrações como o que vem ocorrendo na Síria.

Os cientistas já alertaram que, se continuarmos com os mesmos hábitos de produção e consumo, o planeta vai aquecer ainda mais, o que geraria um clima mais catastrófico.

O que a geração que está no poder (nas grandes empresas e nos governos) está disposta a fazer para evitar uma herança maldita para as próximas gerações? Menos do que o necessário.

Em dezembro passado, chefes de estado de 195 países prometeram reduzir as emissões de poluentes que provocam as mudanças do clima. Porém, se implementado, o acordo de Paris ainda resultaria no aumento de temperatura de 2,7 graus centígrados até 2100. Porém, os cientistas recomendam evitar um aumento superior a 2 graus. A falta de ambição pode ser corrigida pois o acordo deverá ser revisto a cada cinco anos.

A dificuldade em prometer cortes necessários das emissões foi, em grande parte, resultado do pensamento de curto prazo dos líderes. Eles temem que reduzir as emissões afetem seus negócios e poder. A maioria dos governantes se preocupada mais com garantir vitória nas próximas eleições (geralmente em menos de cinco anos) enquanto muitas diretores de corporações pensam nos resultados do próximo trimestre. Há também um incomodo psicológico. É difícil para alguns admitir que as práticas que geraram muitos bons resultados até recentemente (como o aumento de expectativa de vida, aumento de educação e o progresso científico) também resultaram em impactos negativos e devem mudar.

Felizmente, a história ensina que muitos jovens não têm o compromisso em manter o poder, os negócios e o conforto psicológico dos mais velhos. Por exemplo, as vendas de refrigerantes caíram 25% nos Estados Unidos pois os jovens estão adotando hábitos alimentares mais saudáveis.

Além de mudar o consumo, construir um futuro mais sustentável dependerá de mudar os investimentos. E muitas pessoas já estão engajadas nesta tarefa. Nos Estados Unidos, a partir de 2012 estudantes começaram a pressionar os fundos fiduciários de suas universidades a retirarem seus investimentos de combustíveis fósseis. Esse tipo de campanha de desinvestimento foi importante para acabar com o Apartheid na África do Sul.

Três anos depois de muitas campanhas, em dezembro de 2015, 500 grupos em todo mundo haviam se comprometido com alguma forma de desinvestimento que atinge US$ 3,5 trilhões.

Deixar de investir nas atividades mais poluidoras permitirá realocar recursos que empreguem os jovens em uma economia mais sustentável. São múltiplas as oportunidades.

Cerca de 25-30% do alimento produzido é desperdiçado, desde o campo até a mesa das famílias e restaurantes. Será necessário reduzir o desperdício para conseguir alimentar mais pessoas sem desmatar novas áreas. Engenheiros de produção e agrônomos podem trabalhar juntos para reduzir as perdas no campo, no transporte e armazenamento. Nutricionistas e chefes de cozinha podem se juntar para ensinar as pessoas a aproveitarem melhor todas as partes dos alimentos.

Agrônomos, engenheiros florestais, zootenistas e veterinários podem se juntar para reduzir as emissões da agropecuária que hoje somam 62% das emissões brasileiras dos poluentes que causam as mudanças climáticas (incluindo as emissões do desmatamento).

Engenheiros florestais ajudariam os proprietários de terras a reflorestarem e assim recuperar áreas para produção de água e também para retirar carbono da atmosfera.

Publicitários e engenheiros de transporte podem desenhar políticas de transporte público mais eficazes e atrativas.

Advogados podem ajudar os trabalhadores a desenharem novos arranjos para produção colaborativa e menos poluente.

Psicólogos ajudariam as pessoas a fazerem a transição de estilos de vida baseado na busca por mais coisas para a busca de melhores relacionamentos que são a base da felicidade.

Engenheiros elétricos e civis e administradores trabalhariam para gerar energias de fontes renováveis como solar e eólica.

Para acelerar os investimentos em uma encomia menos poluidora, os jovens também terão de se envolver mais na política. Um exemplo imediato. O plano de investimentos do governo federal (Plano Plurianual da União) aprovado para 2016-2019 previa investimentos em energias renováveis além das hidrelétricas (eólica e solar). Porém, a presidente Dilma vetou tais itens, o que contradiz as promessas brasileiras de aumentar a geração de energias renováveis e menos poluentes. Se os jovens querem salvar o seu futuro, pode começar pressionando o Congresso para derrubar estes vetos.

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O desmatamento e a imagem do Brasil

23/06/2012

Em dois eventos em que palestrei para audiência internacional na Rio+20 comprovei como o desmatamento influencia a imagem do Brasil.

Nos dois eventos, eu e outros analistas avaliamos o que levou à redução de aproximadamente 75% do desmatamento entre 2004 e 2011. Cerca de metade da queda decorreu de políticas públicas, como a criação de áreas protegidas (Unidades de Conservação e reconhecimento de Terras indígenas; maior foco da fiscalização; e aplicação de penas, como o confisco de boi pirata. A redução de preços de soja e gado também desestimularam novos desmatamentos.

No meio do primeiro evento, um dos palestrantes mencionou que até agora estamos deixando de fazer a coisa errada (desmatar), mas que ainda não conseguimos fazer a coisa certa, ou seja, melhorar o uso das áreas desmatadas e valorizar as florestas. A mediadora do evento, uma americana, chamou a atenção para o fato de que deixar de fazer a coisa errada já era um enorme avanço e que o Brasil deveria ser congratulado por isso.

Ao fim do primeiro evento abrimos a sessão de debates. A primeira a pedir a palavra foi uma senhora já idosa e em cadeira de roda. Ela, efusivamente, parabenizou o Brasil pelos resultados contra o desmatamento. Ela lembrou que em 1992 veio ao país como chefe da delegação de ONGs americanas e aproveitou a viagem para levar a filha a Amazônia. A filha ficou maravilhada com a natureza, mas também chocada com o desmatamento para pecuária, a ponto de ter dificuldades de se alimentar por alguns dias, e acabou deixando de comer carne e se tornou ambientalista. Agora ela estava feliz em ver os avanços.

Depois do debate, um britânico se aproximou de mim e falou:

Eu só queria parabenizar pelo o que os brasileiros estão fazendo. É maravilhoso o que vocês estão fazendo.

No segundo evento, eu e outro grupo de palestrantes apresentamos conclusões parecidas ao do primeiro evento, mostrando os avanços e desafios. No final, uma mulher se aproximou e fez o comentário mais tocante:

Sou brasileira e moro há 20 anos nos Estados Unidos. Fico muito feliz de ver brasileiros tão jovens fazendo este tipo de trabalho. Eu nem tenho vocabulário sobre meio ambiente em português porque quando eu saí daqui há 20 anos ninguém falava sobre isso.

A emoção e sorriso dela demonstravam que a queda do desmatamento era um indicador de um país que está dando certo, que está avançando.

As declarações destas pessoas validam o que notei em vários discursos de empresários e governantes brasileiros em debates na e sobre a Rio+20. A queda do desmatamento foi apresentada como a grande conquista ambiental brasileira.

Infelizmente, eu e outros profissionais que atuamos neste tema não temos parado para comemorar. Quando olhamos o desmatamento remanescente, cerca de 650 mil hectares em 2011 (ou 480 milhões de árvores), ainda consideramos uma área grande demais. Ainda falta fazer muito para zerar o desmatamento, incluindo desmontar políticas públicas que o favorecem.

Ademais, temos nos preocupado em tentar evitar o enfraquecimento das políticas que deram certo, incluindo a reforma do Código Florestal, a redução de áreas protegidas e o enfraquecimento do poder fiscalizador do Ibama. Se esta tendência se consolidar, é provável que o desmatamento volte a subir. Daí a imagem do Brasil vai novamente estar associada ao atraso.

Mas eu espero que o sucesso parcial até agora e a melhoria de imagem do Brasil inspirem o país a reagir duramente contra uma eventual volta do desmatamento.


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