Quem quer te confundir?


Acabei de ler três livros (lista no final) que ajudam a entender um fenômeno preocupante.

Nos Estados Unidos o poder público atrasou ou tem deixado de tomar decisões sábias para resolver problemas socioeconômicos, de saúde e ambientais. Por exemplo, em Merchants of Doubt os autores demonstram como governos falharam em regular a indústria do tabaco por cerca de quarenta anos, apesar de que havia consenso cientifico de que fumar aumenta o risco de câncer. No mesmo livro os autores contam como o mesmo fenômeno vem atrasando as ações contra as mudanças climáticas, apesar de que os cientistas já demonstraram que as atividades humanas tem causado o aquecimento do planeta.

Vejo que as falhas de informação e percepção descritas nos livros também ocorrem no Brasil. Por isso, resolvi compartilhar aqui as lições destas leituras na esperança de que possamos tomar decisões mais inteligentes sobre políticas públicas.

No mundo ideal, os cientistas produziriam informações sobre os problemas. Estas informações seriam transmitidas corretamente para os cidadãos e políticos e estes tomariam decisões acertadas para resolver os problemas.
Entretanto, nos três livros os autores revelam as várias falhas que atrasam ou impedem as soluções.
Em Merchants of Doubts (Mercadores de dúvidas) dois historiadores da ciência demonstram como empresas promovem dúvida sobre o conhecimento científico para evitar que os governos regulem suas atividades. Eles sabem que cidadãos e políticos em dúvida deixam de agir.

Por exemplo, a indústria do tabaco e de combustíveis fósseis contrataram ex-cientistas para omitir, distorcer e fabricar informações que negassem o consenso científico sobre o efeito do fumo no risco de câncer e sobre a gravidade e causa das mudanças climáticas. Essas informações preparadas para causar dúvida eram retransmitidas por vários canais como seminários, boletins, notas a imprensa, artigos de opiniões em grandes jornais e reportagens. Esta mesma abordagem foi usada em vários outros casos como o papel dos gases CFC na formação do buraco na camada de ozônio e das emissões de gás carbônico nas mudanças climáticas.

Por que ex-cientistas renomados aceitariam o papel de mercadores da dúvida? Segundo os autores, além de dinheiro e poder, os ex-cientistas eram/são também motivados por ideologia. Por exemplo, alguns deles eram extremistas liberais e queriam evitar que as informações científicas fossem usadas para regular o setor privado (contra o fumo e contra as mudanças climáticas).

Por que a imprensa divulgaria informações distorcidas? Aqui também há uma combinação de motivos. Parte da imprensa é alinhada ideologicamente e comercialmente as empresas – por exemplo, os editores abrem espaço para os mercadores da dúvida ao mesmo tempo que restringem a divulgação científica. Além disso, segundo o livro Informing the News (Informando a Notícia) outras razoes propiciam a divulgação de informações distorcias. Por exemplo:

  1. Poucos jornalistas são especializados e capazes de julgar a qualidade de informações científicas.
  2. Jornalistas muitas vezes preferem enquadrar a noticia em termos do conflito e não sobre a substancia do que está sendo divulgado. Por exemplo, eles preferem descrever os atores do conflitos e suas posições em vez de aprofundar a análise das causas e consequências do fenômeno em questão. Esta tendência resultaria de dois fatores: ii- o conflito é atrativo ou ii- o jornalista é incapaz ou sem tempo para aprofundar seu entendimento sobre o assunto.
  3. Jornalistas confundem ser objetivo e equilibrado com ouvir os dois lados da questão, mesmo quando um lado está errado. Se o jornalista não explica que o mercador da dúvida está passando informações distorcida, o leitor fica com impressão de que existem dois lados plausíveis.

A facilidade para a circulação de informação distorcida também teria aumentado com a internet que facilita a participação de novos atores por meio de blogs e sites.

Por que os cientistas não reagiram contra os mercadores da dúvida? Alguns reagiram e tem reagido, mas a reação tem sido insuficiente. Alguns tem ficado intimidado pela pressão que tem sofrido, inclusive processos legais custosos. Além disso, a formação e personalidade de muitos cientistas os afastam da tarefa de comunicar seus resultados para o público leigo ou nos debates políticos.

Os cidadãos permanecem desinformados ou mal informados por dois motivos principais. Primeiro, a maioria não é especialista e fica a mercê da informação contraditória transmitida pela imprensa e pela internet. Segundo, de acordo com as autoras de Do Facts Matter? (Os Fatos Importam?) uma parte da população usa um filtro ideológico para selecionar e interpretar novas informações. Ou seja, eles preferem ouvir e acreditar nas informações que validam duas crenças. Por exemplo, se a pessoa não gosta de interferência do governo, ela é mais provável a acreditar na informação errada de que há incerteza sobre as mudanças climáticas e que o governo não deve regular as emissões de gases do efeito estufa.

Os políticos que por razoes financeiras (financiamento de campanha) ou ideológicas não quer regular o setor privado, usa ou encomenda as informações distorcidas para manter a inércia.

No caso das empresas de tabaco, a mentira teve perna longa. Após cerca de 50 anos, a justiça americana condenou as empresas de tabaco por ter “criado e executado um esquema para enganar os consumidores e potenciais consumidores”. Documentos das empresas demonstram que elas sabiam disso desde a década de 1950.

O que fazer para evitar que os mercadores da dúvida continuem atrasando a solução de problemas ambientais? Se quisermos que as políticas públicas sejam sábias será necessário lidar com as várias falhas.

Thomas E. Patterson, o professor de Governo e Imprensa de Harvard, recomenda que o jornalismo seja transformado, incluindo desde mudanças na formação e especialização dos jornalistas até a produção de notícias mais significativas e aprofundadas (que de fato são as mais lidas, segundo estudos). Ele prega o jornalismo baseado no conhecimento. O centro que ele dirige em Harvard tem se dedicado esta missão, incluindo recursos para jornalistas (http://journalistsresource.org).

O fato de que a credibilidade da imprensa é decadente talvez ajude a reformar a imprensa. Segundo o instituto Galupp, a proporção dos americanos que confiam muitíssimo e muito nos telejornais caiu de 31% para 18% entre 2006 e 2014; enquanto que a dos jornais impressos caiu de 30% para 22%. No Brasil, segundo o Ibope, a confiança nos meio de comunicação caiu de 71 para 56 pontos entre 2009 e 2013.

Enquanto a imprensa não melhora, cientistas já se movimentam para melhorar a comunicação direta com o público. Por exemplo, um consórcio de universidades americanas criou o programa Climate Voices (Vozes do Clima) que disponibiliza cientistas para conversarem presencialmente ou via internet sobre mudanças climáticas nos 50 estados americanos. Esse tipo de iniciativa deve ser replicada considerando que o público merece conhecer as descobertas que geralmente são financiadas pelos impostos.

Os cidadãos esclarecidos também devem questionar os seus representantes políticos e as empresas que insistem em usar informações distorcidas para a formulação de políticas públicas. O atraso em lidar com as mudanças climáticas já está produzindo consequências como chuvas e tempestades mais extremas. Não podemos esperar que os políticos só decidam agir quando for tarde demais.

Aqui os livros:

  1. Merchants of Doubt (Mercadores de Duvida) de Naomi Oreskes (professora de história e estudos da ciência na Universidade da Califórnia em San Diego) e Erik M. Conway (historiador da ciência e tecnologia).
  2. Do Facts Matter?: Information and Misinformation in American Politics (Os fatos importam?: Informação e Informação Errada na Política Americana) De Jennifer L. Hochschild (Professora de Governo e estudos Africanos e Afro-americanos na universidade Harvard) e Katherine Levine Einstein (Professora de Ciencias Políticas na Universidade de Boston).
  3. Informing the News: The Need for Knowledge-Based Journalism (Informando a Notícia: A Necessidade de um Jornalismo Baseado no Conhecimento) de Thomas E. Patterson (professor de Governo e a Imprensa na universidade Harvard).
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