Como fiquei milionário roubando madeira e terras


Esta é a estória* de como fiquei milionário em Zorralândia e do que vou fazer agora que vou me aposentar.

Nasci em uma cidadezinha no norte de Zorralândia e, desde pequeno, decidi que queria ficar rico logo. Eu não tinha paciência para estudar e nem para adular ninguém para ganhar voto (me disseram que um jeito de ficar rico seria me tornar político).

Quando eu tinha 16 anos, percebi que meu primo tava ficando rico. Ele tinha mudado para Ipelândia, umas terras muito distantes no sul de Zorralândia, e todo ano vinha nas férias com mais dinheiro, carro potente novinho, roupas bonitas e fazia muitas festas. A mulherada toda queria fica com ele.

Ele me confessou que ganhava dinheiro roubando madeira das terras do governo em Ipelândia. Ele derrubava as árvores, serrava e vendia para as grandes cidades em toda Zorralândia e exportava para outros países. Ele corrompia os fiscais do governo para legalizar a madeira. Ele disse que todo homem tinha seu preço. Era moleza.

Eu pedi para ir junto e ele me levou, depois de convencer minha mãe que precisava de alguém para ajudar na serraria. Como eu não queria estudar, minha mãe ficou até aliviada que eu iria trabalhar.

Depois de trabalhar com meu primo por alguns anos e aprender as manhas do negócio, ele abriu outra serraria para eu tomar conta, em uma outra região da Ipelândia. Lá, o negócio ficou um pouco mais complicado. Algumas das áreas já eram ocupadas por índios e coletores de castanha. Eu tinha que comprar a madeira deles, mesmo que fosse por um preço muito baixo – mas era mais caro do que nas áreas onde eu só roubava a madeira.

Nesta época, descobri que nem todo mundo tinha um preço – alguns castanheiros e índios não queriam vender a madeira. Ameacei alguns deles. Uns cederam, mas outros resistiram. Eu tive que mandar matar os resistentes. Meu primo discordava. Ele disse que era ladrão, não assassino. Nunca mais nos falamos depois disso.

Aprendi que aqui a violência é poderosa e faz os caras te obedecerem. Continuei comprando madeira barata de umas áreas e roubando de outras.

O negócio era tão bom que virou um problema – outros caras como eu vinham do norte de Zorralândia fazer o mesmo. Algumas vezes eu tinha que disputar a terra com esses caras. Meus capangas tiveram que matar uns e outros. Quando a madeira acabava em uma área, eu abandonava as terras e ia para outras fronteiras.

Depois de alguns anos, o próprio governo me ajudou a ganhar mais dinheiro. O presidente de Zorralândia prometeu abrir umas novas estradas em Ipelândia. Eu sabia que mais gente ia chegar para investir em agropecuária nas terras ao longo da estrada.

Daqui para frente, eu poderia roubar e vender terras que estivessem próximas da rota de novas estradas. Além de tirar a madeira, eu desmatava as áreas e plantava pasto para criar camelos. Eu deixava um camelo em cada dois hectares de pasto para demonstrar que a terra já estava ocupada e assim desestimular que outros ocupassem a área. Os camelos são bons para ocupar a terra, pois são rústicos. Assim, eu não tinha que gastar muito para manter a área ocupada, enquanto esperava o governo abrir a estrada.

Como eu já tinha muito dinheiro que ganhei com madeira, eu poderia esperar por muito anos até que o governo abrisse as estradas e a terra valorizasse. Se o governo demorasse a abrir a estrada, eu poderia vender os camelos gordos para o abate e transportá-los pelas estradas madeireiras antigas ou meus peões poderiam até mesmo tocá-los andando nos trechos que as estradas já estavam muito degradadas.

A criação de camelos também me ajudou a lavar o dinheiro da venda de madeira roubada. Eu transferia o dinheiro da venda de madeira para as fazendas e pagava um imposto menor.

Como eu vendia as terras que não eram minhas? Eu corrompia os cartórios para registrar títulos falsos de terra. Eu também conseguia vender terra mesmo sem documentos, pois os compradores sabiam que seria muito difícil o governo retomar a terra; seria uma batalha judicial de 20 a 30 anos. Além disso, quem estivesse de posse da terra poderia exigir que o governo compensasse os investimentos feitos, como os gastos para desmatar. Eu acho muita graça desta parte – a gente ia lá, roubava e degradava a terra do governo e depois o governo teria que nos compensar para devolvermos a terra dele. Só em Zorralândia!

A especulação com a terra também é facilitada pelo fato de o governo ser ineficiente na cobrança do imposto sobre terras (IT). O valor a ser pago de IT é baseado no valor da terra e no grau de utilização. Para desestimular a especulação, o IT estabelece uma alíquota alta para terras grandes que são mal usadas; ou seja, com o grau de utilização baixo. Mas, sempre foi fácil sonegar este imposto. Nós mentimos sobre o valor da terra – a terra vale Z$ 1000, mas a gente diz que vale Z$ 50.

Além disso, mesmo usando mal a terra, a gente pode dizer que usa bem as terras usadas para especulação. O IT exige um índice mínimo de produtividade para dizer que a terra é produtiva – por exemplo, estabelece o número mínimo de camelos por hectare ou quantas toneladas de grãos por hectare. Por lei, o governo deveria atualizar este índice, pois a tecnologia vai melhorando com o tempo; ou seja, a gente deveria aumentar a produtividade. Mas, o governo não atualiza o índice que usa dados de 1975 – ou seja, de quase 40 anos atrás.

Porque não atualizam? Primeiro, porque vários políticos têm terra improdutiva e não querem pagar mais imposto. Segundo, porque a gente financia a campanha de vários políticos para eles fazerem o que a gente manda. Essa é uma das explicações para aquela frase dinheiro chama dinheiro.

Quando o governo finalmente cumpre a promessa e abre as estradas é a hora de faturar vendendo a terra que se valoriza. As vezes esta época envolve alguma complicação por causa de pequenos invasores de terra. Quando a estrada é aberta, eles vêm buscar oportunidades e querem ocupar as terras. Eles fazem isso porque a lei diz que os latifúndios improdutivos – que são as terras que tenho – deveriam ser usadas para a reforma agrária. Para isso, o governo teria que desapropriar as terras. Mas, como o governo não sai buscando terras para desapropriar e não cobra o IT, os pobres invadem algumas terras para forçar o governo a desapropriar. Em geral, nossos capangas conseguem botar eles pra correr. Mas, em alguns casos temos que mandar uns deles para debaixo da terra. A gente escolhe aqueles mais aguerridos, que são líderes. Acontece algum alvoroço, sai na imprensa, mas logo passa. Em Zorralândia morre tanta gente assassinada todo dia, até nas grandes cidades, que ninguém liga para mais um que morre no meio do mato em Ipelândia.

De uns tempos para cá, tivemos que financiar mais os políticos para nos livrarem de embaraços. O governo começou a perseguir quem desmata em Ipelândia. Além de desmatarmos ilegalmente, eles dizem que o desmatamento deixa o planeta mais quente e seca as fontes de água.

De vez em quando o governo nos multa, mas não pagamos. Mesmo assim, é um custo pagar advogado para atrasar ou eliminar a cobrança. Além disso, como o valor das multas aumentou, aqueles fiscais corruptos ficaram mais gulosos; querem mais dinheiro para não nos multar. Por isso, nós pagamos uns políticos para anistiarem parte do desmatamento. A batalha da votação foi meio complicada, pois tem mais gente interessada em meio ambiente. Os nossos representantes no Congresso tiveram que inventar que se não desmatar vai faltar comida e que a pressão ambiental é financiada por países imperialistas que querem impedir o desenvolvimento de Zorralândia. Pense bem, imagina se iria faltar comida com tanta terra desmatada mal usada? O próprio governo sabe que não faltará comida, pois presidentes e ministros já disseram dá para aumentar a produção sem desmatar. Mas, como sempre, meter medo e apelar para o nacionalismo funciona e ganhamos a batalha. Rimos muito daqueles ambientalistas babacas.

Depois de tantas aventuras, duas coisas que aconteceram este ano podem fazer eu me aposentar mais cedo. A primeira, foi uma ação inteligente do governo contra o desmatamento. Eles prenderam uns ladrões de terra e madeira com base em leis com penas mais severas do que a lei ambiental, incluindo a lei contra lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. No total, os caras podem ser condenados a mais de 50 anos de cadeia. Logo depois da prisão, o desmatamento diminuiu na região onde eles operavam. Se o governo manter a inteligência, vai querer prender outros da mesma forma. Além disso, apareceram alguns juízes que estão usando uma tal de delação premiada para fazer os bandidos presos entregarem outros bandidos maiores. Se usarem a delação premiada contra nosso negócio, podem chegar até mim.

A segunda, é que tá faltando água em algumas regiões mais povoadas no norte do país. A imprensa tá começando a mostrar que parte da falta d’água é resultado do desmatamento, tanto no norte quanto no sul do país. Essa situação pode aumentar a pressão contra o desmatamento; afinal, agora são os bacanas das grandes cidades de Zorralândia que estão sofrendo com falta d’água.

Eu não quero esperar para saber no que isso vai resultar. Depois de trinta anos roubando terras e madeira, já acumulei Z$200 milhões. Uma boa parte disso já está em paraísos fiscais. Vou viver de renda em Miami e curtir a vida com as gatas. Quem ficar em Zorralândia que se vire com falta d’água. ☺

* Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com personagens e fatos em qualquer lugar do universo, serão mera coincidência.

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4 Responses to Como fiquei milionário roubando madeira e terras

  1. Breno disse:

    Simplesmente brilhante !!!

  2. Jose disse:

    Brilhante.
    Conheço dezenas de casos como estes e impunemente os ricos financiam sindicatos,políticos,corrompem funcionários públicos nas esferas municipal,estadual e federal.
    Ao longo do eixo da Br 163 e fato comum a unica ação de punição foi até agora a operação castanheira em Novo Progresso com a ressalva que os principais criminosos fugiram e hoje desmatam e vendem terras na Amazônia Boliviana.
    INFELIZMENTE IMPUNES!

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