O Brasil vai perder os bolsistas do programa Ciências Sem Fronteiras?


Em 2013, viajei pelos Estados Unidos e Europa e fiquei impressionado com as iniciativas locais transformadoras das cidades.

Em um mundo globalizado, as cidades estão competindo para atrair investimentos e pessoas empreendedoras e capacitadas que formarão a base do desenvolvimento local. Para atrair tais pessoas, os lideres locais estão melhorando, ampliando ou revolucionando investimentos em transporte, segurança, cultura e ciência e tecnologia.

Uma das transformações mais impressionantes está ocorrendo em Nova Iorque.   Em 2010, a prefeitura lançou a iniciativa Applied Sciences NYC  para atrair investimentos em ciência e tecnologia.  Um dos pilares deste programa foi uma competição global para escolher a entidade que  receberia incentivos (a concessão de um terreno por 99 anos e US$ 100 milhões de um fundo municipal de investimento) para instalar um campus universitário focado em ciência e engenharia. O consórcio ganhador da competição, formado pela Universidade  Cornell e o Instituto de Tecnologia Technion-Israel, estão investindo US$ 2 bilhões no centro. Além disso, a prefeitura tem realizado convênios com universidade locais para fortalecer programas de ciência e tecnologia.

Ao mesmo tempo, Nova Iorque lançou um ambicioso programa de ampliação dos espaços públicos abertos. A meta é que todo habitante da cidade tenha área pública disponível a no máximo 10 minutos de caminhada. Nova Iorque também entrou no rol de outras cidades que integraram as bicicletas ao transporte público como Paris, Londres e Barcelona.

Além destes investimentos, vários países, estados e cidades estão usando propaganda e mudando regras para facilitar a imigração de trabalhadores qualificados. Ano passado, o governo alemão anunciou em revista de grande circulação no Brasil: Venha para a Alemanha. Seu filho virá de qualquer jeito.

Estas iniciativas respondem, entre outros, a necessidade de suprir o déficit de jovens qualificadas em regiões onde a população jovem tem diminuído por redução de natalidade e envelhecimento.

Comparar o que tenho visto em cidades de outros países com o Brasil é inevitável.O resultado desta comparação é uma mistura complexa. Primeiro, além de prefeitos ruins, chama atenção o fato de que os municípios têm relativamente pouco poder, pois o governo federal concentra a arrecadação e gestão dos recursos. Assim, os prefeitos ficam em grande parte subjugados as decisões dos governadores e  da presidência da república.

Segundo, a qualidade de vida de muitas cidades brasileira é sofrível pelo acúmulo de falhas de todos níveis do Poder Público. Os cartazes dos protestos do ano passado sinalizaram as angústias. Gastos excessivos e baixos investimentos levaram a inflação, inclusive dos transportes públicos. Além disso, a redução do IPI dos automóveis acelerou o aumento de engarrafamentos em cidades desprovidas de transporte público de qualidade. A polícia violenta e despreparada atiçou ainda mais os protestos.

A população gritou contra a tentativa de calar o Ministério Público (PEC 37) que luta contra a corrupção que diminui a quantidade e qualidade do investimento público em saúde,  segurança, educação e infraestrutura.

Os políticos tentaram apagar o incêndio dos protestos; por exemplo, a abandonar a ideia de enfraquecer o Ministério Público. Entretanto, eles parecem apostar que o povo vai desistir de melhorar o Brasil ou que não sabem o que fazer para melhorá-lo. Por exemplo,  o presidente do Senado voltou a voar em avião público para fins privados. Depois de ser flagrado, devolveu o dinheiro. Mas continua no poder. O Tribunal Superior Eleitoral editou resolução que limita o poder de investigação do Ministério Público nas eleições.

No Maranhão, como no resto do país, parte dos bandidos presos continua controlando o crime fora das prisões. A novidade no Maranhão foi a governadora dizer que seu estado tem ficado mais violento porque está ficando mais rico.

Diante deste quadro, é necessário refletir se em breve o Brasil vai começar a perder alguns dos seus jovens mais preparados para as cidades internacionais que estão trabalhando para atraí-los. Especificamente, estou curioso para saber se os bolsistas do programa Ciências Sem Fronteiras voltarão ao Brasil ou se serão seduzidos pela qualidade de vida das melhores cidades internacionais. Minha experiência recente indica que o Brasil vai ter que melhorar rapidamente se quiser tê-los de volta.

Em dezembro passado visitei meu filho em Glasgow (Escócia), onde ele é bolsista do Ciências sem Fronteiras. Durante uma das conversas, ele me perguntou se eu estava pensando em comprar um carro novo e se iria blindá-lo.

Essa pergunta, surpreendente para mim, fazia sentido para ele que agora está vivendo em uma cidade onde a taxa de homicídios é 15 vezes menor do que em Belém, onde moro. Nos últimos seis meses, enquanto usufruía da sensação de viver em lugar seguro, ele continuou ouvindo os casos de colegas que são assaltados em Belém.

De volta a Belém, em uma semana ouvi dois casos de pessoas que tinham se livrado de balas por terem os carros blindados. Lembrei do meu filho. Ele voltará ao Brasil em setembro para concluir a graduação. Depois terá que ficar no país o tempo equivalente ao período da bolsa de estudos. Porém, sinto que se a violência no Brasil continuar como está, ele não hesitará em  deixar o país depois de cumprir esta obrigação.

Como este ano teremos eleições, gostaria de pensar que o Brasil elegerá políticos comprometidos em melhora nossa qualidade de vida. Assim, seriamos capazes de manter aqui nosso jovens mais preparados.

Embora os políticos não tenham demonstrado que mudaram por causa dos protestos, surpresas podem acontecer. Desde o fim dos grandes protestos, manifestações menores tem continuado em todo o Brasil. A Copa do Mundo e as eleições provavelmente trarão o povo para a rua novamente.

Espero que uma consequência da pressão popular seja a transferência de mais poderes e recursos dos governos estaduais e federal para os  governos municipais. É mais fácil o povo cobrar dos prefeitos e vereadores do que pressionar os políticos em Brasília e nas capitais.

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3 Responses to O Brasil vai perder os bolsistas do programa Ciências Sem Fronteiras?

  1. Julio Cesar Pinho Mattos disse:

    A matéria carrega uma análise superficial,,,,não será um filho saindo do país após receber apoio do Governo Federal, com o brilhante programa Ciência sem Fronteiras que resolverá o problema.

    Quer dizer ? Nós trabalhadores pagamos impostos para o seu filho estudar fora e depois ele vai embora…sem dar nenhum retorno ao país?

    Não é um bom exemplo amigo!

    Abraço Fraterno!

    • Paulo Barreto disse:

      Julio

      como pagador de altos impostos também torço muito para que meu filho queira ficar no Brasil e ajude a melhorá-lo.
      Para tanto, ele e outros jovens terão que sentir que o país tem possibilidades de evoluir. O fato de que o povo foi para as ruas mostra que chegamos a um impasse. As instituições não estão respondendo à população. Espero que mais protestos forcem as mudanças necessárias.

      Paulo Barreto

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