Por que eu fui às ruas?


Depois que os protestos explodiram nas ruas, muitos têm tentado entender por que os brasileiros acordaram.

Eu participei de duas passeatas em Belém para restaurar minha esperança no Brasil.

Eu comecei a me interessar por política lá pelos meus 15 anos, no começo da década de 1980. Naquela época, o Brasil era só desesperança, principalmente por causa da inflação. Lembro-me que na época do vestibular, em 1984, ninguém sabia direito o que fazer com tanto desânimo sobre o futuro do país.

Chegamos ao fundo do poço com os governos Sarney e Collor.  A corrupção e o confisco dos depósitos bancários foram as fagulhas que levaram o povo às ruas. O impeachment de Collor sinalizou que o povo podia fazer a diferença.

Desde então, o país vinha melhorando em vários aspectos. O controle da inflação mostrou que poderíamos resolver problemas complexos e persistentes. Por exemplo, aumentamos o número de crianças nas escolas, reduzimos a desigualdade social com melhorias na economia e com programas sociais, a maior segurança de contratos favoreceu o financiamento da casa própria, o rápido crescimento chinês acelerou nosso crescimento com as exportações de mercadorias minerais e agropecuárias, aumentamos as áreas protegidas, reduzimos a exploração ilegal de madeira e o desmatamento na Amazônia.

 Apesar do progresso, minha irritação com o país continuou, pois a qualidade de vida ainda é sofrível. Mais recentemente, a irritação vinha dando lugar ao desespero.  A seguir explico esta evolução que me levou às ruas.

A violência é aterrorizante. Há poucos anos meu pai foi baleado em um assalto na sala de sua casa em Castanhal, a 70 km de Belém. No ano passado, meu irmão mais novo e sua família também foram assaltados em sua casa, que fica a cerca de 100 metros da casa dos meus pais.

Em  2005, vários colegas de trabalho foram assaltados a caminho do nosso escritório, em Ananindeua, município da Região Metropolitana de Belém. Procuramos a polícia por causa da frequência de casos, mas os policiais nos recomendaram sair de lá, ao invés de se preocuparem em tornar a área mais segura.

 A falta de solução para a violência me obrigou a mudar radicalmente a vida. O Imazon teve que forçadamente mudar-se de Ananindeua para Belém. De repente, eu que ia a pés para o trabalho, tive que encontrar outro meio para viajar os 14 quilômetros até o novo escritório.

 Ir de bicicleta seria quase um suicídio, pois o trecho da BR-316 entre Ananindeua e Belém é campeão em mortes em rodovias federais no país. Os ônibus são péssimos e perigosos. Eu e minha esposa fomos assaltados em um ônibus. Lembro-me de uma senhora em prantos enquanto o assaltante arrancava sua aliança. Durante uma semana, involuntariamente, me pegava pensando em como encontrar o bandido.

Sem alternativas, comecei a ir de carro para o trabalho. No começo, gastava cerca de 20 minutos. Porém, à medida que mais carros ocuparam as ruas sem melhoria na infraestrutura, o deslocamento passou para 40 minutos e depois para pelo menos uma hora. Cheguei ao meu limite de cansaço e mal humor.

Tive que mudar para Belém para manter a sanidade. Porém, eu não tinha como comprar um apartamento próximo ao novo escritório do Imazon. Enquanto não encontrava um imóvel para comprar, aluguei um apartamento que me permitiu voltar a ir a pés para o trabalho.

Depois, comprei um apartamento na planta, porém a construtora demorou um ano e meio para entregá-lo e a qualidade do acabamento era aquém da prometida. Pior ainda, a construtora queria que eu pagasse o reajuste do saldo devedor referente ao período que eles atrasaram as obras. Decidi não aceitar este abuso e ingressei na justiça para reaver as parcelas que paguei. Dada a lerdeza da justiça, não tenho a mínima ideia de quando vou recebê-las. Tive que comprar outro apartamento, mas tendo que usar toda a poupança acumulada em 20 anos.

Frequentemente ouço casos de colegas que são assaltados em vários lugares da cidade. Em casa, meu filho relata os casos de assaltos sofridos por seus colegas. Pela TV vejo, angustiado, pais que após terem seus filhos assassinados, tentam continuar a vida se engajando em movimentos contra a violência. Eles não querem que outros sintam tamanha dor; se recusam a aceitar que seus filhos tenham sido transformados apenas em uma estatística do crime. Temo que mais alguém próximo vire estatística do crime.

Meu desconforto com o país vinha se transformando em desespero ao perceber que, além de males tradicionais da política (corrupção e incompetência), havia indícios de agravamento e inovação de ameaças e vulnerabilidades.

O cinismo dos eleitores pareceu atingir níveis mais elevados após o mensalão. Lula foi reeleito em 2006 após declarar que todo mundo faz caixa dois nas campanhas. Os políticos parecem também ter acreditado que um pouco de melhoria econômica os credenciaria a desmontar conquistas e pilares dos avanços.

O Congresso e o Executivo enfraqueceram o Código Florestal e outras regras ambientais nos últimos dois anos. Este desmonte foi uma reação ao aumento da punição de crimes ambientais resultante de melhorias no Ibama, de iniciativas da sociedade civil e do Ministério Público (MP). Os políticos ignoraram os cientistas, a petição com 1,3 milhão de assinaturas e o fato de que 79% da população eram contra o perdão de multas de quem desmatou ilegalmente as florestas.

Na Amazônia, o governo federal vem implementando projetos de viabilidade duvidosa, de forma opressora e quebrando as regras – aprovou licenças ambientais para obras sem consultar devidamente as populações indígenas afetadas e reduziu áreas protegidas sem seguir as regras para facilitar o licenciamento de hidrelétricas.

O Senado Federal humilhou o país ao reconduzir Renan Calheiros à presidência do Senado. Cerca de 1,5 milhão de pessoas assinaram petição contra, mas nada aconteceu.

Em Belém, a população reelegeu um prefeito ruim. Para coroar seu governo desastroso, ele iniciou em 2012 obras de um sistema de ônibus rápido que não poderia concluir para tentar eleger seu indicado. Perdeu, mas deixou uma obra inconclusa que tornou o trânsito ainda mais infernal.

Antes dos protestos, a Câmara dos Deputados estava prestes a aprovar a PEC 37 que tiraria o poder de investigação do Ministério Público. Os políticos estavam sinalizando que queriam ainda mais liberdade para roubar e devastar o país.

A presidente, que já tinha confessado que em campanha se faz o diabo, criou o seu 39º ministério para ampliar a sua já extravagante base aliada. Instalou lá o vice-governador de São Paulo que é governado por partido rival. O diabo estava avisando que chegou mais cedo neste ano pré-eleitoral.

Tentando ser otimista, ao longo dos últimos anos intensifiquei minhas cobranças por meio de cartas aos parlamentares, assinando petições na internet e outras companhas via redes sociais. Porém, os políticos continuavam a marcha da insensatez e arrogância.

Os protestos iniciados pelo aumento das passagens trouxeram todos os temas para a rua. Fiquei feliz em saber que ainda existem brasileiros esperançosos de que podemos ser melhores.

Os políticos começaram a tentar dar respostas. A queda da PEC 37 revela que os políticos querem sobreviver atendendo parte das demandas. Porém, o vai e vem sobre a reforma política indica que alguns estão perdidos. O uso de aviões da FAB depois do início dos protestos mostra também que outros ainda duvidam das mensagem das ruas.

Uma coisa está clara: para avançar, será necessário manter a pressão nas ruas e nas redes sociais.

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