O desmatamento e a imagem do Brasil


Em dois eventos em que palestrei para audiência internacional na Rio+20 comprovei como o desmatamento influencia a imagem do Brasil.

Nos dois eventos, eu e outros analistas avaliamos o que levou à redução de aproximadamente 75% do desmatamento entre 2004 e 2011. Cerca de metade da queda decorreu de políticas públicas, como a criação de áreas protegidas (Unidades de Conservação e reconhecimento de Terras indígenas; maior foco da fiscalização; e aplicação de penas, como o confisco de boi pirata. A redução de preços de soja e gado também desestimularam novos desmatamentos.

No meio do primeiro evento, um dos palestrantes mencionou que até agora estamos deixando de fazer a coisa errada (desmatar), mas que ainda não conseguimos fazer a coisa certa, ou seja, melhorar o uso das áreas desmatadas e valorizar as florestas. A mediadora do evento, uma americana, chamou a atenção para o fato de que deixar de fazer a coisa errada já era um enorme avanço e que o Brasil deveria ser congratulado por isso.

Ao fim do primeiro evento abrimos a sessão de debates. A primeira a pedir a palavra foi uma senhora já idosa e em cadeira de roda. Ela, efusivamente, parabenizou o Brasil pelos resultados contra o desmatamento. Ela lembrou que em 1992 veio ao país como chefe da delegação de ONGs americanas e aproveitou a viagem para levar a filha a Amazônia. A filha ficou maravilhada com a natureza, mas também chocada com o desmatamento para pecuária, a ponto de ter dificuldades de se alimentar por alguns dias, e acabou deixando de comer carne e se tornou ambientalista. Agora ela estava feliz em ver os avanços.

Depois do debate, um britânico se aproximou de mim e falou:

Eu só queria parabenizar pelo o que os brasileiros estão fazendo. É maravilhoso o que vocês estão fazendo.

No segundo evento, eu e outro grupo de palestrantes apresentamos conclusões parecidas ao do primeiro evento, mostrando os avanços e desafios. No final, uma mulher se aproximou e fez o comentário mais tocante:

Sou brasileira e moro há 20 anos nos Estados Unidos. Fico muito feliz de ver brasileiros tão jovens fazendo este tipo de trabalho. Eu nem tenho vocabulário sobre meio ambiente em português porque quando eu saí daqui há 20 anos ninguém falava sobre isso.

A emoção e sorriso dela demonstravam que a queda do desmatamento era um indicador de um país que está dando certo, que está avançando.

As declarações destas pessoas validam o que notei em vários discursos de empresários e governantes brasileiros em debates na e sobre a Rio+20. A queda do desmatamento foi apresentada como a grande conquista ambiental brasileira.

Infelizmente, eu e outros profissionais que atuamos neste tema não temos parado para comemorar. Quando olhamos o desmatamento remanescente, cerca de 650 mil hectares em 2011 (ou 480 milhões de árvores), ainda consideramos uma área grande demais. Ainda falta fazer muito para zerar o desmatamento, incluindo desmontar políticas públicas que o favorecem.

Ademais, temos nos preocupado em tentar evitar o enfraquecimento das políticas que deram certo, incluindo a reforma do Código Florestal, a redução de áreas protegidas e o enfraquecimento do poder fiscalizador do Ibama. Se esta tendência se consolidar, é provável que o desmatamento volte a subir. Daí a imagem do Brasil vai novamente estar associada ao atraso.

Mas eu espero que o sucesso parcial até agora e a melhoria de imagem do Brasil inspirem o país a reagir duramente contra uma eventual volta do desmatamento.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: