Memórias – A maratona para desvendar a exploração da madeira mais valiosa da Amazônia


Quando publicamos uma pesquisa cientifica, apresentamos os métodos e os resultados. Porém, as estórias envolvidas na pesquisa podem ser também muito reveladoras. Abaixo, conto os ˜bastidores˜ da maratona para coletar dados sobre a exploração de mogno.

Em 1992, eu e Beto Veríssimo fomos para o sul do Pará com a missão de estudar os impactos ambientais e a economia de exploração de mogno, a madeira mais valiosa da Amazônia naquela época. Dominávamos bem a abordagem do estudo, pois já tínhamos feito trabalho similar em outras regiões do estado.

Para caracterizar a economia da exploração mapearíamos quantas empresas madeireiras operavam na região, o volume explorado e os gastos e receitas de uma amostra das empresas. Para tanto, teríamos que entrevistar os donos ou gerentes de várias empresas madeireiras e os capatazes das operações de exploração no campo.

Para avaliar o impacto ambiental teríamos de medir em algumas áreas indicadores como quantas árvores foram exploradas por hectare, a área aberta pela exploração (estradas, pátios de estocagem, clareiras abertas pela derrubada e arraste das árvores até os pátios de estocagem) e o número de árvores danificadas por todas estas operações. Entretanto, sabíamos que talvez tivéssemos que fazer alguma adaptação para a coleta dos impactos ecológicos. Em outras regiões que estudamos eram exploradas várias espécies, mas nesta região dominava a exploração apenas do mogno que tinha uma distribuição peculiar. Quantas áreas teríamos que medir para caracterizar bem os impactos? Teríamos de resolver isto no campo. Mas este não foi o principal desafio da coleta de dados.
A coleta de dados durou cerca de três meses e se revelou uma maratona combinada com saltos e desvios de obstáculos. Como em muitos casos de coleta de dados na Amazônia, experimentamos muitos momentos fora da zona de conforto.

Sabíamos que a região de estudo era marcada pela violência associada a disputas pelo controle de territórios para a exploração do mogno, de terras e de ouro. De fato, quando mencionava o que estávamos estudando ouvi vários casos de disputa o que tornava o clima de terror quase palpável.  Por isso, decidimos sermos econômicos quando explicávamos o que estávamos fazendo na região.

Como a exploração era muitas vezes associada à ilegalidade, era provável que muitos madeireiros negassem informações e o acesso as áreas de exploração. Por isso, fiquei bastante contente quando dois madeiros nos autorizaram a estudar suas áreas.

Partimos de Tucumã, a cidade que usamos como base inicial, para a primeira área. Parte da equipe foi em nosso carro (um Gol velho inapropriado para as estradas da região) e parte de carona em um dos caminhões da madeireira. Chegamos na área no fim do dia, depois de desatolar nosso carro algumas vezes. Como de costume, em áreas distantes da cidade dormimos no barraco no acampamento dos operários. Os barracos naquela época eram típicos, cobertos de lona plástica e sem paredes. Equipamentos e pessoas se misturavam. As pessoas dormiam em redes. A cozinha ficava separada.

Durante a madrugada, ouvi que outras pessoas chegaram ao barraco. Pela manhã, descobrimos que quem chegou foi o tio do madeireiro que nos autorizara a estudar a área. A área era um latifúndio dividido por vários membros da família, uma técnica comum de grilagem de terras. Ele chegara de Goiás, onde a família vivia. De cara, ele disse para sairmos da área. Embora sua indumentária incluísse um revolver bem visível na cintura, tentamos explicar que a pesquisa não era focada nele individualmente. A análise não revelaria a localização precisa da exploração e nem o nome da empresa. Para cada argumento, ele contra argumentava. Para mim, a negação definitiva foi: E se vocês estiverem procurando por ouro? Concluímos que não conseguiríamos convencê-lo e que seria perigoso ficar ali.

Reempacotamos a bagagem para seguir para a segunda área. Mas como parte da equipe chegou ali de carona no caminhão desta empresa, tive que voltar a cidade para pegar carona no caminhão de outro madeireiro.

A carona com o caminhoneiro para a próxima área foi mais assustadora do que despertar com o não de um madeireiro armado e desconfiado.

O transporte de toras da empresa era terceirizado para caminhoneiros que vinham de outras regiões do país para faturar alto na safra de mogno. Por isso, eles corriam feito loucos para maximizar o número de viagens. A parte final da viagem de cerca de 180 quilômetros foi durante a noite, em alta velocidade, por uma estrada muito estreita, tortuosa e empoeirada. Era um comboio de caminhões, mas eu não enxergava mais do que cinco metros a frente.  O motorista propositalmente acelerava para assustar a mim e ao jovem assistente que contratamos na cidade. Eu fingia que estava tudo bem para não estimular o motorista a correr ainda mais, mas achei que não chegaria vivo. Chegamos.

Passamos cerca de uma semana no acampamento cujas condições eram típicas. O sono era perturbado por caminhões que iam e vinham durante a noite inteira. A comida era bruta: muito sal e gordura. Saudade de frutas e verduras. Tomávamos vitamina C para prevenir doenças em tais condições.

Em geral, eu já estava acostumado ao acampamentos, que o Ministério do Trabalho classificaria de sub-humanos, mas nesta área havia um agravante. O igarapé intermitente que foi barrado para reservar a água, estava secando rapidamente no fim do verão. A lavagem de roupa engordurada, utensílios de cozinha e equipamentos da equipe de exploração formou uma camada de sujeira na superfície da água.  Depois de um dia de trabalho na floresta, este era a única alternativa para o banho. Antes de banhar, empurrava a camada de gordura para o lado e ia em frente. Pelo menos usávamos nossa água mineral para beber e escovar os dentes.

Quando os operários da exploração nos viam desarmados andando pela mata fazendo as medições, tentavam nos assustar dizendo que nós iriamos encabelar a merda da onça. Explico. As fezes da onça contém grande quantidade de pelos de suas presas. De fato, vimos fezes e pegadas de onças na área. Além disso, um dia um dos meus assistentes, que estava a cerca de 40 metros de mim, correu em minha direção gritando que tinha visto uma onça. Aguardamos, observamos e ela não apareceu. Continuamos o trabalho. Não sei se ele de fato viu a onça ou foi impressionado pelos estimulo dos operários e pelos sinais da presença delas na mata.

Um dia apareceu no acampamento o dono da área, ou seja o cara que ocupou o território e vendeu o direito de exploração para o madeireiro que nos autorizou a realizar o estudo. Semi-analfabeto, o dono desta área tinha ficado rico localizando as áreas com concentração de mogno e depois enviando equipes para encontrar e derrubar as árvores e depois abrir e sinalizar as trilhas para que o madeireiro retirasse as toras da floresta.  Literalmente, ele vendia o mapa do ouro verde para o madeireiro. De vez em quando, ele ia na área supervisionar as operações.

Ele era um sujeito misterioso e com fama de mal. Imagine o que ele tinha que fazer para controlar estes territórios ricos em mogno? Na região, dizia-se que os donos das áreas eliminavam os inimigos.

Durante esta visita, peguei carona em sua caminhonete para voltar de um trecho da mata até o barraco. Queria saber como ele trabalhava, como encontrava o mogno. Ele contou, mas foi econômico. De avião, eles identificavam as concentrações de mogno pelo brilho das suas folhas nas partes mais baixas do terreno. Armado de espingarda, se animou ao contar estórias de como matou onças.

Naquela época, sem GPS não sabíamos exatamente a localização desta área no mapa da região. Depois, descobrimos que a exploração era dentro de uma área indígena. Não conseguimos saber se os índios autorizaram ou não esta exploração.

Ficamos sabendo que a equipe da empresa terminaria a extração antes de concluirmos a coleta de dados. Por isso, Beto foi à cidade contratar um veículo com motorista para continuarmos o trabalho depois que os operários da empresa partissem. Poucos dias depois que Beto chegou com o caminhoneiro, ele começou a passar mal. Aceleramos o passo para concluir os levantamentos.  O motorista contratado ficou muito mal. Jurandir, o nosso assistente, mesmo sem muita prática, teve que dirigir o caminhão de volta. Em Tucumã, descobrimos que o motorista estava com malária. Sabia que a doença é penosa, pois cresci vendo casos na família. Fizemos exames também, mas estávamos sãos.  Alívio.

Outro madeireiro autorizou o estudo na segunda área que ficava em São Felix do Xingu.
Fomos a beira do rio Xingu aguardar a balsa que nos levaria até próximo da área. Porém, a balsa chegou carregada de equipamentos e de operários que abandonaram a área. Segundo eles, os índios que teriam autorizado a exploração invadiram a área demandando um pagamento maior pela madeira.  Teríamos que achar outra área.

Ainda em São Félix, nos informaram de um extrator local, mas ele nos evitava. Depois de várias tentativas conseguimos a autorização. Finalmente, cruzamos o belíssimo rio Xingu.

O acampamento desta segunda área era ainda mais precário. Havia uma pessoa doente que ficava o tempo todo em uma rede. Desconfiamos que fosse malária e decidimos ficar em outro local. Uma família de colonos aceitou que armássemos nossas redes na casa de farinha deles (um pequeno barraco sem paredes com a máquina para ralar a mandioca e o forno para assar a farinha). Pouco dias depois de começarmos o trabalho nesta área, parou na estrada em frente ao nosso barraco uma camionete que transportava um defunto para a cidade. Teria morrido de uma doença repentina e desconhecida. Mais um incentivo para concluirmos rapidamente a coleta de dados nesta área.

A terceira área de estudo, próxima a Redenção, foi relativamente fácil. Ficamos hospedados no rancho da fazenda que ainda tinha uma rara reserva de mogno nesta região.

Depois de três meses, cumprimos a missão de coletar os dados sobre a exploração e o processamento do mogno nas serrarias. Quando voltei a Belém, minha namorada na época (atual esposa) achou que voltei com cheiro de selvagem e bem mais magro.

Para finalizar o trabalho ainda foi necessário um novo levantamento a ocupação em torno das estradas abertas pelos madeireiros. Nosso levantamento inicial mostrou eu os madeireiros abriram cerca de 3.000 km de estradas no sul do Pará e que parte destas estradas estavam sendo ocupadas por colonos e grileiros. Nosso colega Ricardo Tarifa voltou a região para  fazer este levantamento.

Publicamos o estudo em inglês em uma das revistas mais conceituadas do setor, a Forest Ecology and Management. Depois, publicamos em português em uma publicação do Imazon. Até dezembro de 2011, o estudo em inglês foi altamente citado (201 vezes) em outras publicações cientificas.

Mais importante ainda, o estudo inspirou novos estudos sobre a ecologia do mogno e iniciativas não governamentais e governamentais para controlar a exploração do mogno.

Seguem abaixo os links para as versões em inglês e português:

Extraction of a high-value natural resource in Amazonia: the case of mahogany

Inglês: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/037811279403432V#AFF2

Português: http://www.imazon.org.br/publicacoes/livros/a-expansao-madeireira-na-amazonia-impactos-e/at_download/file

 

 

 

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