O que aprendi na Universidade Yale?


Respondendo a pedidos, escrevi aqui como consegui estudar na Universidade Yale, onde fiz o mestrado em ciências florestais entre 1995 e 1997. Resolvi compartilhar um pouco mais sobre esta experiência escrevendo abaixo o que aprendi lá.

A minha turma de mestrado em Yale

Em Yale expandi as habilidades para resolver problemas relacionados ao desenvolvimento sustentável. Para tanto, fiz cursos que me permitiram revisar o estado da arte do conhecimento e aprender fundamentos e métodos para analisar problemas e construir e avaliar soluções.

Foi especialmente relevante aprender a considerar as dimensões sociais e políticas envolvidas nas questões ambientais. Por exemplo, fui para Yale querendo me aprofundar em modelagem, assumindo que modelos computacionais dariam a resposta para os problemas. Entretanto, aprendi que a modelagem é apenas uma ferramenta para melhorar o entendimento dos problemas ou avaliar soluções.  Em vários cursos aprendi que a análise e solução de problemas dependem de julgamentos de quem decide, os quais são condicionados por seus valores.

A própria definição do problema decorre do valor que damos ou não a determinadas variáveis ou situações. Por exemplo, é aceitável perturbar ou destruir os meios de vidas de populações indígenas em troca da construção de uma hidrelétrica?  Nenhum modelo computacional e nem análises financeiras resolvem este tipo de questão. O debate sobre este tipo de problema envolve valores como honra, reputação e justiça. Por exemplo, como a reputação de um governante ou financiador será afetada pelo apoio a tal projeto de hidrelétrica?

­Portanto, para resolver um problema que envolve tais dilemas é essencial entender os atores envolvidos nas decisões e os seus valores. Além disso, que recursos (ou base de valores) temos para afetar os valores dos participantes. O curso mais importante que tive nesta área foi foundations of natural resources policy and management que era lecionado por um antropólogo e um zoologista (combinação que já indica a inovação da aula). Eles usam uma abordagem multidiciplinar chamada policy sciences que integra conceitos do direito, antropologia, sociologia, psicologia, lógica entre outros.

Um outro curso inovador foi modelagem de política em que um especialista em pesquisa operacional ensinava como usar matemática para a formulação e análise de políticas públicas. Como tais técnicas são aplicáveis em muitas áreas,  este curso ensinado na escola de administração de Yale (SOM), era frequentado por alunos de várias escolas como meio ambiente e saúde pública. A abordagem envolvia definir muito claramente as perguntas e considerar que modelagem seria aplicável para respondê-las. Um mantra para o professor era: comece a modelagem de forma simples, pois geralmente faltam dados para lidar com problemas políticos em toda a sua complexidade. Determine as políticas com base nestas análises e avalie os seus efeitos. Depois atualize as políticas com base nas lições e nos novos dados. Esta abordagem funciona já que geralmente poucos fatores contribuem com grande parte de determinado resultado (princípio 80/20).

Uso frequentemente esta abordagem. Por exemplo, a variação dos preços de produtos agrícolas (especialmente o preço do boi) tem sido fortemente ligada à variação das taxas de desmatamento na Amazônia. Portanto, tenho focado ações e análises sobre a pecuária – que é responsável por cerca de 70% a 80% do desmatamento – para ajudar na redução do desmatamento.

Ademais, aprendi muito com outros cursos tradicionais: economia de recursos naturais, métodos quantitativos para tomada de decisão, estatística, ecologia florestal e silvicultura, ecologia da vida silvestre, manejo florestal, ecologia da paisagem, natureza e sociedade e métodos de pesquisa.

Além das aulas, aprendi muito em viagens de campo nas quais conversávamos com gestores de florestas públicas e privadas além de grupos de interesse como empresários e ambientalistas. Por exemplo, visitamos a floresta que é manejada em torno do maior reservatório de água de Boston. Tive várias aulas práticas em duas das florestas da própria universidade as quais são manejadas para produção de madeira e servem de estações científicas.

No Estado de Arkansas visitamos operações de manejo de floresta nativa e plantada, além de indústrias de papel e celulose e de madeira. Ouvimos sobre os vários pontos de vista acerca do manejo de florestas públicas (National Forests) naquele estado – os gestores públicos, os madeireiros e os ambientalistas. Como no Brasil, os conflitos entre estes setores eram candentes.

Na Alemanha, junto com professores e estudantes das universidades de Munique e Friburgh, visitamos parques e plantações florestais.

A experiência em Yale, além de me fortalecer como analista, também me fez ser mais humilde. Nem que eu tivesse muitas vidas, eu conseguiria absorver todo o conhecimento disponível nas impressionantes bibliotecas de Yale. Assim, a cooperação será sempre essencial para compreender e resolver problemas complexos.

A praça em frente a biblioteca Sterling Memorial em Yale

 

Um das salas de estudo da biblioteca Sterling Memorial em Yale.

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