Vamos ocupar as Unidades de Conservação da Amazônia para protegê-las.


As manchetes sobre a Amazônia tendem a ser deprimentes, envolvendo violência e destruição ambiental.  Que tal tornar a região fonte de aprendizado, diversão, aventura e desenvolvimento para empresários, estudantes e comunidades locais?

As Unidades de Conservação (UCs) na Amazônia têm sido uma das formas mais eficazes de proteger a biodiversidade da região e de garantir o direito de uso de recursos naturais de populações tradicionais da região (como seringueiros e castanheiros). Porém, várias das UCs estão sendo destruídas e sob risco de degradação e destruição. A degradação e destruição envolvem exploração ilegal de madeira, garimpagem e desmatamento (incluindo a queimada) para a agropecuária.

Até novembro de 2009 eu e minha colega Elis Araújo, documentamos iniciativas de empresários e políticos para reduzir a proteção legal das UCs por meio de ações judiciais e dos legislativos que aprovam leis para reduzir o tamanho das áreas ou reduzir o grau de proteção ou simplesmente extinguir a área. Até julho de 2010, tais iniciativas resultaram na supressão de quase 5 milhões de hectares de outros 8,7 milhões continuavam sob risco (processos judiciais e legislativos em trâmite).

As falhas de proteção ocorrem pela falta de investimentos ou de gerenciamento para garantir a implementação completa das UCs. A implementação envolveria preparar um plano de uso das áreas (pesquisa, turismo, exploração sustentável de produtos florestais), contratar pessoal e instalar vigilância permanente nas áreas.

Sem um plano de uso, o potencial de gerar receitas com a exploração dos recursos naturais e do turismo não se realiza e agrava a percepção local de que as UC são inúteis. A ausência de autoridades, de visitantes e trabalhadores no local facilita a ocupação e a exploração ilegais.

Os debates sobre como garantir a implementação das UC tendem a esbarrar no argumento de que faltam recursos e pessoal. Porém, creio que seria possível usar a cooperação e financiamentos alternativos para garantir a ocupação protetora das UCs.

Os gestores das UCs e o setor privado poderiam criar programas de estágios e residência para atrair estudantes universitários que ajudariam no planejamento e implementação das UCs.

Como a gestão de uma UC tende a ser complexa, haveria oportunidades para a participação de alunos de várias áreas. Estudantes das ciências da terra ajudariam nos aspectos biofísicos (inventários de biodiversidade, solos, hidrografia, cartografia, etc.). Futuros profissionais das humanidades ajudariam a formar o conselho consultivo das áreas, a negociar a resolução de conflitos e os planos de uso, a criar as bases para a regularização fundiária (entrevistas, mapeamentos, verificação documental), etc. Grupos de todas as áreas de conhecimentos (incluindo administradores, turismólogos, economistas, agrônomos, engenheiros florestais, etc.) ajudariam a elaborar planos de negócios sustentáveis para as UCs e para as comunidades ao redor.

Os engenheiros (civis, navais, de produção, etc.) exercitariam suas habilidades no desenho e implementação da infra-estrutura e logística. Equipes multidisciplinares poderiam avaliar e propor regras e procedimentos mais eficientes para a preparação e implementação dos planos de manejo.

Alunos da área de saúde assistiriam as equipes envolvidas no trabalho e também moradores das UCs e de seus arredores. Alunos das comunicações (jornalistas, publicitários, cineastas, fotógrafos) documentariam e divulgariam a jornada coletiva e ajudariam os outros alunos a documentarem suas experiências pessoais. Imagine a riqueza do que seria produzido em vídeos, blogues, livros, fotografias, etc.  Estudantes de nutrição e de culinária explorariam como usar os ingredientes locais para alimentar as equipes e criar novos pratos regionais.

Estudantes do ensino fundamental e médio das comunidades locais poderiam também participar como guias, colaboradores e recebendo treinamento dos universitários e professores envolvidos nos projetos.

Militares das forças armadas poderiam contribuir com a logística, segurança e treinamentos de sobrevivência na floresta. Enfim, a lista de oportunidades para engajamento é imensa.

Tenho certeza de que este tipo de experiência marcaria a vida da maioria dos participantes. Alguns voltariam a trabalhar na região após a graduação e outros levariam lições valiosas para onde quer que venham a trabalhar. Minhas certezas são baseadas em observações de estudantes americanos e brasileiros que participaram de programas similares (Peace Corps e Projeto Rondon).  Eles têm um entendimento muito mais profundo de problemas relacionados ao desenvolvimento sustentável do que outros estudantes e profissionais.

Por que e como empresas deveriam participar? As empresas que pagam compensação ambiental* aos órgãos ambientais deveriam estimular este tipo de arranjo para garantir que os recursos sejam aplicados eficientemente – atualmente, parte do dinheiro pago nem sequer é gasto. Além disso, outras empresas poderiam contribuir com estes programas como parte de suas estratégias de responsabilidade socioambiental e de marketing.  Além de contribuir com dinheiro, elas poderiam oferecer aos seus executivos um período sabático nas UCs. Tais profissionais certamente trariam muita experiência para os estudantes e comunidades locais e também poderiam gerar novas oportunidades de negócios para suas empresas com base nestas experiências.

Em resumo, em vez de manchetes tristes, a Amazônia poderia ser a fonte de alegria, conhecimento e desenvolvimento sustentável por meio da colaboração entre governos, academia, estudantes, comunidades locais e empresas.

 

*Empresas que licenciam empreendimentos causadores de danos (por exemplo, pela construção de uma hidrelétrica ou a operação de uma mina) devem pagar a compensação ambiental.

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