Memórias – A maratona para desvendar a exploração da madeira mais valiosa da Amazônia

16/01/2012

Quando publicamos uma pesquisa cientifica, apresentamos os métodos e os resultados. Porém, as estórias envolvidas na pesquisa podem ser também muito reveladoras. Abaixo, conto os ˜bastidores˜ da maratona para coletar dados sobre a exploração de mogno.

Em 1992, eu e Beto Veríssimo fomos para o sul do Pará com a missão de estudar os impactos ambientais e a economia de exploração de mogno, a madeira mais valiosa da Amazônia naquela época. Dominávamos bem a abordagem do estudo, pois já tínhamos feito trabalho similar em outras regiões do estado.

Para caracterizar a economia da exploração mapearíamos quantas empresas madeireiras operavam na região, o volume explorado e os gastos e receitas de uma amostra das empresas. Para tanto, teríamos que entrevistar os donos ou gerentes de várias empresas madeireiras e os capatazes das operações de exploração no campo.

Para avaliar o impacto ambiental teríamos de medir em algumas áreas indicadores como quantas árvores foram exploradas por hectare, a área aberta pela exploração (estradas, pátios de estocagem, clareiras abertas pela derrubada e arraste das árvores até os pátios de estocagem) e o número de árvores danificadas por todas estas operações. Entretanto, sabíamos que talvez tivéssemos que fazer alguma adaptação para a coleta dos impactos ecológicos. Em outras regiões que estudamos eram exploradas várias espécies, mas nesta região dominava a exploração apenas do mogno que tinha uma distribuição peculiar. Quantas áreas teríamos que medir para caracterizar bem os impactos? Teríamos de resolver isto no campo. Mas este não foi o principal desafio da coleta de dados.
A coleta de dados durou cerca de três meses e se revelou uma maratona combinada com saltos e desvios de obstáculos. Como em muitos casos de coleta de dados na Amazônia, experimentamos muitos momentos fora da zona de conforto.

Sabíamos que a região de estudo era marcada pela violência associada a disputas pelo controle de territórios para a exploração do mogno, de terras e de ouro. De fato, quando mencionava o que estávamos estudando ouvi vários casos de disputa o que tornava o clima de terror quase palpável.  Por isso, decidimos sermos econômicos quando explicávamos o que estávamos fazendo na região.

Como a exploração era muitas vezes associada à ilegalidade, era provável que muitos madeireiros negassem informações e o acesso as áreas de exploração. Por isso, fiquei bastante contente quando dois madeiros nos autorizaram a estudar suas áreas.

Partimos de Tucumã, a cidade que usamos como base inicial, para a primeira área. Parte da equipe foi em nosso carro (um Gol velho inapropriado para as estradas da região) e parte de carona em um dos caminhões da madeireira. Chegamos na área no fim do dia, depois de desatolar nosso carro algumas vezes. Como de costume, em áreas distantes da cidade dormimos no barraco no acampamento dos operários. Os barracos naquela época eram típicos, cobertos de lona plástica e sem paredes. Equipamentos e pessoas se misturavam. As pessoas dormiam em redes. A cozinha ficava separada.

Durante a madrugada, ouvi que outras pessoas chegaram ao barraco. Pela manhã, descobrimos que quem chegou foi o tio do madeireiro que nos autorizara a estudar a área. A área era um latifúndio dividido por vários membros da família, uma técnica comum de grilagem de terras. Ele chegara de Goiás, onde a família vivia. De cara, ele disse para sairmos da área. Embora sua indumentária incluísse um revolver bem visível na cintura, tentamos explicar que a pesquisa não era focada nele individualmente. A análise não revelaria a localização precisa da exploração e nem o nome da empresa. Para cada argumento, ele contra argumentava. Para mim, a negação definitiva foi: E se vocês estiverem procurando por ouro? Concluímos que não conseguiríamos convencê-lo e que seria perigoso ficar ali.

Reempacotamos a bagagem para seguir para a segunda área. Mas como parte da equipe chegou ali de carona no caminhão desta empresa, tive que voltar a cidade para pegar carona no caminhão de outro madeireiro.

A carona com o caminhoneiro para a próxima área foi mais assustadora do que despertar com o não de um madeireiro armado e desconfiado.

O transporte de toras da empresa era terceirizado para caminhoneiros que vinham de outras regiões do país para faturar alto na safra de mogno. Por isso, eles corriam feito loucos para maximizar o número de viagens. A parte final da viagem de cerca de 180 quilômetros foi durante a noite, em alta velocidade, por uma estrada muito estreita, tortuosa e empoeirada. Era um comboio de caminhões, mas eu não enxergava mais do que cinco metros a frente.  O motorista propositalmente acelerava para assustar a mim e ao jovem assistente que contratamos na cidade. Eu fingia que estava tudo bem para não estimular o motorista a correr ainda mais, mas achei que não chegaria vivo. Chegamos.

Passamos cerca de uma semana no acampamento cujas condições eram típicas. O sono era perturbado por caminhões que iam e vinham durante a noite inteira. A comida era bruta: muito sal e gordura. Saudade de frutas e verduras. Tomávamos vitamina C para prevenir doenças em tais condições.

Em geral, eu já estava acostumado ao acampamentos, que o Ministério do Trabalho classificaria de sub-humanos, mas nesta área havia um agravante. O igarapé intermitente que foi barrado para reservar a água, estava secando rapidamente no fim do verão. A lavagem de roupa engordurada, utensílios de cozinha e equipamentos da equipe de exploração formou uma camada de sujeira na superfície da água.  Depois de um dia de trabalho na floresta, este era a única alternativa para o banho. Antes de banhar, empurrava a camada de gordura para o lado e ia em frente. Pelo menos usávamos nossa água mineral para beber e escovar os dentes.

Quando os operários da exploração nos viam desarmados andando pela mata fazendo as medições, tentavam nos assustar dizendo que nós iriamos encabelar a merda da onça. Explico. As fezes da onça contém grande quantidade de pelos de suas presas. De fato, vimos fezes e pegadas de onças na área. Além disso, um dia um dos meus assistentes, que estava a cerca de 40 metros de mim, correu em minha direção gritando que tinha visto uma onça. Aguardamos, observamos e ela não apareceu. Continuamos o trabalho. Não sei se ele de fato viu a onça ou foi impressionado pelos estimulo dos operários e pelos sinais da presença delas na mata.

Um dia apareceu no acampamento o dono da área, ou seja o cara que ocupou o território e vendeu o direito de exploração para o madeireiro que nos autorizou a realizar o estudo. Semi-analfabeto, o dono desta área tinha ficado rico localizando as áreas com concentração de mogno e depois enviando equipes para encontrar e derrubar as árvores e depois abrir e sinalizar as trilhas para que o madeireiro retirasse as toras da floresta.  Literalmente, ele vendia o mapa do ouro verde para o madeireiro. De vez em quando, ele ia na área supervisionar as operações.

Ele era um sujeito misterioso e com fama de mal. Imagine o que ele tinha que fazer para controlar estes territórios ricos em mogno? Na região, dizia-se que os donos das áreas eliminavam os inimigos.

Durante esta visita, peguei carona em sua caminhonete para voltar de um trecho da mata até o barraco. Queria saber como ele trabalhava, como encontrava o mogno. Ele contou, mas foi econômico. De avião, eles identificavam as concentrações de mogno pelo brilho das suas folhas nas partes mais baixas do terreno. Armado de espingarda, se animou ao contar estórias de como matou onças.

Naquela época, sem GPS não sabíamos exatamente a localização desta área no mapa da região. Depois, descobrimos que a exploração era dentro de uma área indígena. Não conseguimos saber se os índios autorizaram ou não esta exploração.

Ficamos sabendo que a equipe da empresa terminaria a extração antes de concluirmos a coleta de dados. Por isso, Beto foi à cidade contratar um veículo com motorista para continuarmos o trabalho depois que os operários da empresa partissem. Poucos dias depois que Beto chegou com o caminhoneiro, ele começou a passar mal. Aceleramos o passo para concluir os levantamentos.  O motorista contratado ficou muito mal. Jurandir, o nosso assistente, mesmo sem muita prática, teve que dirigir o caminhão de volta. Em Tucumã, descobrimos que o motorista estava com malária. Sabia que a doença é penosa, pois cresci vendo casos na família. Fizemos exames também, mas estávamos sãos.  Alívio.

Outro madeireiro autorizou o estudo na segunda área que ficava em São Felix do Xingu.
Fomos a beira do rio Xingu aguardar a balsa que nos levaria até próximo da área. Porém, a balsa chegou carregada de equipamentos e de operários que abandonaram a área. Segundo eles, os índios que teriam autorizado a exploração invadiram a área demandando um pagamento maior pela madeira.  Teríamos que achar outra área.

Ainda em São Félix, nos informaram de um extrator local, mas ele nos evitava. Depois de várias tentativas conseguimos a autorização. Finalmente, cruzamos o belíssimo rio Xingu.

O acampamento desta segunda área era ainda mais precário. Havia uma pessoa doente que ficava o tempo todo em uma rede. Desconfiamos que fosse malária e decidimos ficar em outro local. Uma família de colonos aceitou que armássemos nossas redes na casa de farinha deles (um pequeno barraco sem paredes com a máquina para ralar a mandioca e o forno para assar a farinha). Pouco dias depois de começarmos o trabalho nesta área, parou na estrada em frente ao nosso barraco uma camionete que transportava um defunto para a cidade. Teria morrido de uma doença repentina e desconhecida. Mais um incentivo para concluirmos rapidamente a coleta de dados nesta área.

A terceira área de estudo, próxima a Redenção, foi relativamente fácil. Ficamos hospedados no rancho da fazenda que ainda tinha uma rara reserva de mogno nesta região.

Depois de três meses, cumprimos a missão de coletar os dados sobre a exploração e o processamento do mogno nas serrarias. Quando voltei a Belém, minha namorada na época (atual esposa) achou que voltei com cheiro de selvagem e bem mais magro.

Para finalizar o trabalho ainda foi necessário um novo levantamento a ocupação em torno das estradas abertas pelos madeireiros. Nosso levantamento inicial mostrou eu os madeireiros abriram cerca de 3.000 km de estradas no sul do Pará e que parte destas estradas estavam sendo ocupadas por colonos e grileiros. Nosso colega Ricardo Tarifa voltou a região para  fazer este levantamento.

Publicamos o estudo em inglês em uma das revistas mais conceituadas do setor, a Forest Ecology and Management. Depois, publicamos em português em uma publicação do Imazon. Até dezembro de 2011, o estudo em inglês foi altamente citado (201 vezes) em outras publicações cientificas.

Mais importante ainda, o estudo inspirou novos estudos sobre a ecologia do mogno e iniciativas não governamentais e governamentais para controlar a exploração do mogno.

Seguem abaixo os links para as versões em inglês e português:

Extraction of a high-value natural resource in Amazonia: the case of mahogany

Inglês: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/037811279403432V#AFF2

Português: http://www.imazon.org.br/publicacoes/livros/a-expansao-madeireira-na-amazonia-impactos-e/at_download/file

 

 

 


Conectando pontos: o chiqueiro e o código florestal.

27/11/2011

Clique no texto abaixo para entender a conexão entre vários eventos recentes.

Conectando pontos


O anti-ambientalismo rural é um “tiro no pé” do Brasil

05/11/2011

Entre 1995 e 2010 agropecuária foi responsável em média por aproximadamente 6% do PIB brasileiro. Apesar da importância do setor, o agronegócio permanece vulnerável em áreas críticas para garantir sua competitividade. Destacarei aqui a fraca gestão ambiental dos imóveis rurais.

Muitos fazendeiros desmataram suas terras ilegalmente levando a perda de solo, deslizamento de terras, entupimento de rios e ameaça de extinção da vida silvestre. Algumas destas áreas continuam ocupadas, mas produzem muito pouco. A pecuária é o setor onde este problema é mais grave. São enormes áreas abertas com pouco gado. Segundo a Embrapa e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), só na Amazônia eram 11 milhões de hectares de pastos de baixa produtividade em 2008 – ou o equivalente a cinco vezes o Estado de Sergipe.

A preocupação nacional com a gestão ambiental das fazendas é antiga, pois desde 1938 existe um código florestal que foi atualizado em 1965 com as principais regras atuais. Muitos fazendeiros continuaram desmatando ilegalmente confiantes na impunidade. Entretanto, a medida que os problemas ambientais cresceram, a fiscalização e punições aumentaram e o mercado também começou a boicotar produtos de áreas que foram desmatadas ilegalmente.

Nesta década a preocupação ambiental se agravou por causa das mudanças climáticas. No Brasil a ligação da agropecuária com as mudanças climáticas é especialmente relevante já que em 2005 as mudanças do uso do solo e florestas (que inclui desmatamento) contribuíram com aproximadamente 58% das emissões dos gases que causam o efeito estufa (resumo aqui). É uma contribuição desproporcionalmente negativa: gerar 6% do PIB produzindo quase 58% das emissões. Por isso, o grande foco da Política Nacional de Mudanças do Clima em reduzir o desmatamento.

Diante da pressão ambiental, alguns líderes rurais passaram a dizer que o Brasil pode aumentar a produção agropecuária sem derrubar uma árvore sequer.  Porém, estes mesmos líderes continuam atuando para enfraquecer a gestão ambiental o que resultará em aumento de desmatamento. Duas medidas em curso são especialmente preocupantes.

Mudanças no código florestal. Em maio deste ano a Câmara de Deputados aprovou uma proposta (Projeto de Lei 1.876/1999) de mudança do código florestal que tem sido muito criticada por cientistas, ambientalistas e juristas. Segundo as duas principais associações científicas do país (Academia Brasileira de Ciências – ABC e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC), as propostas não tinham base científica e aumentam riscos. Juristas argumentaram que as vantagens para regularização e anistias estimulariam novos desmatamentos, já que o prazo de adesão para a regularização pode ser prorrogado indefinidamente e as propriedades que aderirem ficarão livres de fiscalização (MPF 2011, G1 2011).

O projeto está sendo analisado no Senado, mas até o momento não há indicações de que será substancialmente melhorado. A ABC e SBPC, que contam com pesquisadores da Embrapa (o principal centro brasileiro de pesquisa agropecuária), continuam criticando o relatório da comissão de Agricultura e Ciência e Tecnologia (veja aqui as críticas).

Redução de áreas protegidas. Vários políticos e empresários tem agido para reduzir o tamanho e/ou o grau de proteção de áreas protegidas. Estas iniciativas visam legalizar a ocupação ilegal já existentes ou favorecer a ocupação futura. Somente na Amazônia, até 2010 existiam 37 dessas iniciativas atingido 48 Áreas Protegidas. Até julho de 2010, 29 áreas haviam sido suprimidas totalizando 49.506 km2 e outras 18 ainda estavam sendo alvo de ações para redução ou extinção de 86.538 km2. Ver estudo aqui.

Há evidências de que a expectativa de aprovação das mudanças no Código Florestal e outras mudanças já vêm estimulando novos desmatamentos na Amazônia.  O Imazon identificou um aumento de 9% no desmatamento da Amazônia entre agosto de 2010 e julho de 2011 em comparação ao mesmo período do ano anterior (Ver análise aqui). Segundo o secretário de meio ambiente de Mato Grosso, os proprietários rurais desmataram mais porque esperam ser anistiados.

O aumento do desmatamento, fruto do anti-ambientalismo rural, tenderá a ser um “tiro no pé” do Brasil. Além dos danos ambientais, poderá resultar em barreiras comerciais. Por exemplo, nos próximos anos os produtores europeus podem perder partes de seus subsídios já que seus governos terão que realizar cortes em seus orçamentos para lidar com a crise econômica. Para compensar estas perdas eles poderão pressionar para que os governos europeus criem barreiras ambientais e/ou sanitárias contra produtos importados. Produtos brasileiros manchados pelo desmatamento são fortes candidatos a encabeçar a lista de produtos barrados.

Portanto, para garantir a importância da agropecuária o Brasil deverá barrar as medidas que podem facilitar o desmatamento como mudanças indevidas do código florestal e a redução de áreas protegidas.  Para tanto, as autoridades públicas deverão ouvir mais os juristas e cientistas e enfrentar os interesses privados de parte dos líderes rurais.

Coincidentemente, enquanto eu escrevia este artigo encontrei o anúncio de um seminário que ocorreu esta semana organizado pela revista The Economist – Brasil em 2022: Ordem ou Progresso? Os organizadores buscaram avaliar se em 2022 o Brasil teria resolvido alguns de suas principais barreiras ao progresso social. A revista pergunta: terá o Brasil enfrentado os principais grupos de interesse que se beneficiam da situação atual, tais quais os grandes proprietários de terra, sindicatos e empresas que se beneficiam de altas barreiras de entrada? Ou o Brasil tratará apenas marginalmente dos problemas e perderá sua chance?

Enfim, até os mais liberais econômicos enxergam que parte do setor rural busca apenas satisfazer seus interesses privados pondo em risco o futuro do país. O Brasil tem coragem de enfrentá-los?


O que aprendi na Universidade Yale?

30/10/2011

Respondendo a pedidos, escrevi aqui como consegui estudar na Universidade Yale, onde fiz o mestrado em ciências florestais entre 1995 e 1997. Resolvi compartilhar um pouco mais sobre esta experiência escrevendo abaixo o que aprendi lá.

A minha turma de mestrado em Yale

Em Yale expandi as habilidades para resolver problemas relacionados ao desenvolvimento sustentável. Para tanto, fiz cursos que me permitiram revisar o estado da arte do conhecimento e aprender fundamentos e métodos para analisar problemas e construir e avaliar soluções.

Foi especialmente relevante aprender a considerar as dimensões sociais e políticas envolvidas nas questões ambientais. Por exemplo, fui para Yale querendo me aprofundar em modelagem, assumindo que modelos computacionais dariam a resposta para os problemas. Entretanto, aprendi que a modelagem é apenas uma ferramenta para melhorar o entendimento dos problemas ou avaliar soluções.  Em vários cursos aprendi que a análise e solução de problemas dependem de julgamentos de quem decide, os quais são condicionados por seus valores.

A própria definição do problema decorre do valor que damos ou não a determinadas variáveis ou situações. Por exemplo, é aceitável perturbar ou destruir os meios de vidas de populações indígenas em troca da construção de uma hidrelétrica?  Nenhum modelo computacional e nem análises financeiras resolvem este tipo de questão. O debate sobre este tipo de problema envolve valores como honra, reputação e justiça. Por exemplo, como a reputação de um governante ou financiador será afetada pelo apoio a tal projeto de hidrelétrica?

­Portanto, para resolver um problema que envolve tais dilemas é essencial entender os atores envolvidos nas decisões e os seus valores. Além disso, que recursos (ou base de valores) temos para afetar os valores dos participantes. O curso mais importante que tive nesta área foi foundations of natural resources policy and management que era lecionado por um antropólogo e um zoologista (combinação que já indica a inovação da aula). Eles usam uma abordagem multidiciplinar chamada policy sciences que integra conceitos do direito, antropologia, sociologia, psicologia, lógica entre outros.

Um outro curso inovador foi modelagem de política em que um especialista em pesquisa operacional ensinava como usar matemática para a formulação e análise de políticas públicas. Como tais técnicas são aplicáveis em muitas áreas,  este curso ensinado na escola de administração de Yale (SOM), era frequentado por alunos de várias escolas como meio ambiente e saúde pública. A abordagem envolvia definir muito claramente as perguntas e considerar que modelagem seria aplicável para respondê-las. Um mantra para o professor era: comece a modelagem de forma simples, pois geralmente faltam dados para lidar com problemas políticos em toda a sua complexidade. Determine as políticas com base nestas análises e avalie os seus efeitos. Depois atualize as políticas com base nas lições e nos novos dados. Esta abordagem funciona já que geralmente poucos fatores contribuem com grande parte de determinado resultado (princípio 80/20).

Uso frequentemente esta abordagem. Por exemplo, a variação dos preços de produtos agrícolas (especialmente o preço do boi) tem sido fortemente ligada à variação das taxas de desmatamento na Amazônia. Portanto, tenho focado ações e análises sobre a pecuária – que é responsável por cerca de 70% a 80% do desmatamento – para ajudar na redução do desmatamento.

Ademais, aprendi muito com outros cursos tradicionais: economia de recursos naturais, métodos quantitativos para tomada de decisão, estatística, ecologia florestal e silvicultura, ecologia da vida silvestre, manejo florestal, ecologia da paisagem, natureza e sociedade e métodos de pesquisa.

Além das aulas, aprendi muito em viagens de campo nas quais conversávamos com gestores de florestas públicas e privadas além de grupos de interesse como empresários e ambientalistas. Por exemplo, visitamos a floresta que é manejada em torno do maior reservatório de água de Boston. Tive várias aulas práticas em duas das florestas da própria universidade as quais são manejadas para produção de madeira e servem de estações científicas.

No Estado de Arkansas visitamos operações de manejo de floresta nativa e plantada, além de indústrias de papel e celulose e de madeira. Ouvimos sobre os vários pontos de vista acerca do manejo de florestas públicas (National Forests) naquele estado – os gestores públicos, os madeireiros e os ambientalistas. Como no Brasil, os conflitos entre estes setores eram candentes.

Na Alemanha, junto com professores e estudantes das universidades de Munique e Friburgh, visitamos parques e plantações florestais.

A experiência em Yale, além de me fortalecer como analista, também me fez ser mais humilde. Nem que eu tivesse muitas vidas, eu conseguiria absorver todo o conhecimento disponível nas impressionantes bibliotecas de Yale. Assim, a cooperação será sempre essencial para compreender e resolver problemas complexos.

A praça em frente a biblioteca Sterling Memorial em Yale

 

Um das salas de estudo da biblioteca Sterling Memorial em Yale.


O que eu faria com R$ 50 milhões?

16/10/2011

Durante dois jantares sociais recentes surgiu a discussão sobre o que fazer com um prêmio da loteria. As conversas surgiram por causa do acumulo recente de prêmios da Mega Sena e do caso de uma novela em que uma personagem ganha R$ 50 milhões.

Então, o que fazer com R$ 50 milhões. A primeira coisa que faria seria investir o dinheiro, escolhendo investimentos em negócios sustentáveis. Considerando um retorno do investimento de 8%/ano, a renda anual seria de cerca de R$ 4 milhões ou R$ 333 mil/mês. Daí, a diversão começaria.

Eu criaria um prêmio para inovação em sustentabilidade que me proporcionaria combinar vários interesses ao mesmo tempo. A seleção das melhores ideias possibilitaria exercitar o prazer da aprendizagem continua, a interação com pessoas brilhantes e empolgadas em contribuir com um futuro mais sustentável e o privilégio de contribuir para o desenvolvimento científico, educacional e econômico no Brasil e quiçá do planeta.

Há dois modelos de premiação que eu consideraria : Dow Sustainability Innovation Student Challenge (ver reportagem aqui) e Energy & Environment Prize Group

Como eu não jogo na loteria, fica a ideia para os milionários brasileiros.


Como consegui estudar na Yale University?

04/10/2011

No último mês duas pessoas me consultaram sobre dicas para conseguir estudar na Yale School of Forestry and Environmental Studies onde fiz o mestrado entre 1995 e 1997. Aproveitei para contar aqui o meu caso que pode ter lições válidas para outros interessados.

A possibilidade de estudar em Yale resultou do meu histórico pessoal e das oportunidades ligadas ao trabalho no Imazon. Esta combinação permitiu que eu conseguisse bolsas de estudo e o interesse da universidade.

Eu tive duas bolsas. A primeira foi da Fundação Ford (FF) administrada pela LASPAU (detalhes a seguir). O apoio incluiu um curso de aperfeiçoamento de inglês (três meses em Pittsburgh), passagens aéreas, seguro saúde, bolsa salário (suficiente para moradia e alimentação) e bolsa para compra de livros.  O segundo apoio foi da própria escola que cobriu as taxas de instrução (twition waiver).

A LASPAU, que é afiliada a universidade Harvard, gerencia vários programas de bolsas de estudo. No caso da bolsa da FF, eles realizaram a seleção e me apresentaram as universidades que poderiam me receber (de uma lista de quatro que eu indiquei- Yale, Duke, Michigan State e Penn State).  A conversa da LASPAU com as universidades é mais ou menos assim: Selecionamos este excelente estudante e temos uma bolsa que cobre todos os custos, menos as taxas de instrução da universidade. Para você tê-lo você precisa dispensar estas taxas.

Os procedimentos de seleção da LASPAU seguiram os padrões das universidades americanas e outros itens, incluindo – análise de currículo, cartas de recomendação, proficiência em inglês (teste TOEFL), teste GRE, questionário de intenções e expectativas e proposta de estudo. No questionário de intenções eles perguntaram o que eu esperava aprender e como pretendia usar o que aprendesse no mestrado.

O que eles levam em conta no meio de tantos indicadores? Eu diria que a principal pergunta que o candidato deve se fazer é:  porque alguém deve investir vários milhares de dólares na minha educação? Eles esperam que você seja capaz de aproveitar ao máximo os recursos que eles oferecem e que você use as ferramentas, contatos e conhecimento para gerar impactos positivos na sua área de atuação.

Por isso, eles buscam por indicadores do seu desempenho e potencial acadêmico e especialmente de engajamento e comprometimento em ser um catalisador positivo. Para tanto, eles dão grande peso as cartas de recomendação e a entrevista. Destaco que eles esperam cartas de pessoas que te conheçam profundamente; isto é, que sejam capazes de comparar seu desempenho com outros estudantes/profissionais e de descrever eventos que indicam seu potencial e desempenho.

No meu caso creio que foram determinantes os seguintes pontos:

i-                    Minha experiência de quatro anos no Imazon em estudos sobre os impactos ambientais da exploração de madeira e uma análise dos custos e benefícios da adoção do manejo florestal para produção de madeira com baixo impacto ambiental. Os temas eram relevantes e o trabalho demonstrava foco em solução do problema.

ii-                   Cartas de recomendação de duas pessoas chaves.  Uma foi do meu orientador no Imazon por quatro anos. Ele era (e ainda é) professor em uma universidade americana e um dos mais renomados ecólogos de florestas tropicais. A segunda foi de outro pesquisador americano cujo doutorado em Yale foi realizado em uma das regiões em que trabalhei. Embora não tivéssemos trabalhado juntos, compartilhamos discussões sobre pesquisa, visitas de campo e alguns eventos.

Dica: Se suas cartas serão de brasileiros, tenha certeza de que eles conhecem bem os critérios e a cultura da avaliação de  cartas de recomendação nas universidades americanas.

iii-                 Entrevista. O representante da LASPAU que me entrevistou em Belém concentrou nas minhas intenções e histórico. Não fiz nem uma preparação especial para a entrevista que foi uma conversa informal e tranqüila. Sei que muitos candidatos se preocupam com as entrevistas e vejo em revistas muitas orientações sobre como se preparar. Entretanto, o mais importante é a sua trajetória e valores genuínos. Não creio que seja possível ensaiar para isso.

Eu considero que os itens acima foram os mais importantes porque minha nota do meu GRE não foi excepcional e a nota de inglês foi 0,7% abaixo que as universidades demandavam. Pelo que entendi, eles avaliam o GRE de estrangeiros com certo desconto, pois é um teste padrão para quem estudou nos EUA.

Além disso, o inglês imperfeito não era um critério de corte, pois a bolsa da LASPAU previa o apoio para o aperfeiçoamento. De fato, foi ótimo ter feito o curso de aperfeiçoamento, pois o meu inglês era de um autodidata (razoável conhecimento de gramática, bom vocabulário baseado em muita leitura, mas fraca conversação e redação). Três meses de um curso muito intensivo na Pittsburgh University me deram fluência oral e escrita.

Depois que a LASPAU aprovou a minha bolsa, eles iniciaram os contatos com Yale (que era a primeira da minha lista) e que já tinha recebido outro brasileiro em condições similares dois anos antes. Ricardo Tarifa, o outro brasileiro, também tinha trabalhado no projeto que originou o Imazon.

Yale respondeu logo me aceitando. Eu imediatamente disse sim e LASPAU encerrou os contatos ou nem iniciou com as outras universidades. Depois um professor de Duke (a minha segunda da lista) também me aceitou, o que seria uma ótima segunda opção.

Em resumo, há muitos detalhes a considerar no caminho para conseguir entrar em uma grande universidade americana. Mas, a meu ver, o mais importante é se perguntar: por que alguém deve investir na sua educação? Você deve demonstrar genuinamente que tem potencial para gerar mudanças positivas na sua área de atuação.

Finalmente, destaco que a experiência no Imazon foi também importante para outras pessoas que conseguiram bolsas de estudo em Yale, University of Florida, Stanford, Penn State University, Michigan State Univesity, Indiana Univesity, Clark University, Cornell e University of California.


Vamos ocupar as Unidades de Conservação da Amazônia para protegê-las.

12/09/2011

As manchetes sobre a Amazônia tendem a ser deprimentes, envolvendo violência e destruição ambiental.  Que tal tornar a região fonte de aprendizado, diversão, aventura e desenvolvimento para empresários, estudantes e comunidades locais?

As Unidades de Conservação (UCs) na Amazônia têm sido uma das formas mais eficazes de proteger a biodiversidade da região e de garantir o direito de uso de recursos naturais de populações tradicionais da região (como seringueiros e castanheiros). Porém, várias das UCs estão sendo destruídas e sob risco de degradação e destruição. A degradação e destruição envolvem exploração ilegal de madeira, garimpagem e desmatamento (incluindo a queimada) para a agropecuária.

Até novembro de 2009 eu e minha colega Elis Araújo, documentamos iniciativas de empresários e políticos para reduzir a proteção legal das UCs por meio de ações judiciais e dos legislativos que aprovam leis para reduzir o tamanho das áreas ou reduzir o grau de proteção ou simplesmente extinguir a área. Até julho de 2010, tais iniciativas resultaram na supressão de quase 5 milhões de hectares de outros 8,7 milhões continuavam sob risco (processos judiciais e legislativos em trâmite).

As falhas de proteção ocorrem pela falta de investimentos ou de gerenciamento para garantir a implementação completa das UCs. A implementação envolveria preparar um plano de uso das áreas (pesquisa, turismo, exploração sustentável de produtos florestais), contratar pessoal e instalar vigilância permanente nas áreas.

Sem um plano de uso, o potencial de gerar receitas com a exploração dos recursos naturais e do turismo não se realiza e agrava a percepção local de que as UC são inúteis. A ausência de autoridades, de visitantes e trabalhadores no local facilita a ocupação e a exploração ilegais.

Os debates sobre como garantir a implementação das UC tendem a esbarrar no argumento de que faltam recursos e pessoal. Porém, creio que seria possível usar a cooperação e financiamentos alternativos para garantir a ocupação protetora das UCs.

Os gestores das UCs e o setor privado poderiam criar programas de estágios e residência para atrair estudantes universitários que ajudariam no planejamento e implementação das UCs.

Como a gestão de uma UC tende a ser complexa, haveria oportunidades para a participação de alunos de várias áreas. Estudantes das ciências da terra ajudariam nos aspectos biofísicos (inventários de biodiversidade, solos, hidrografia, cartografia, etc.). Futuros profissionais das humanidades ajudariam a formar o conselho consultivo das áreas, a negociar a resolução de conflitos e os planos de uso, a criar as bases para a regularização fundiária (entrevistas, mapeamentos, verificação documental), etc. Grupos de todas as áreas de conhecimentos (incluindo administradores, turismólogos, economistas, agrônomos, engenheiros florestais, etc.) ajudariam a elaborar planos de negócios sustentáveis para as UCs e para as comunidades ao redor.

Os engenheiros (civis, navais, de produção, etc.) exercitariam suas habilidades no desenho e implementação da infra-estrutura e logística. Equipes multidisciplinares poderiam avaliar e propor regras e procedimentos mais eficientes para a preparação e implementação dos planos de manejo.

Alunos da área de saúde assistiriam as equipes envolvidas no trabalho e também moradores das UCs e de seus arredores. Alunos das comunicações (jornalistas, publicitários, cineastas, fotógrafos) documentariam e divulgariam a jornada coletiva e ajudariam os outros alunos a documentarem suas experiências pessoais. Imagine a riqueza do que seria produzido em vídeos, blogues, livros, fotografias, etc.  Estudantes de nutrição e de culinária explorariam como usar os ingredientes locais para alimentar as equipes e criar novos pratos regionais.

Estudantes do ensino fundamental e médio das comunidades locais poderiam também participar como guias, colaboradores e recebendo treinamento dos universitários e professores envolvidos nos projetos.

Militares das forças armadas poderiam contribuir com a logística, segurança e treinamentos de sobrevivência na floresta. Enfim, a lista de oportunidades para engajamento é imensa.

Tenho certeza de que este tipo de experiência marcaria a vida da maioria dos participantes. Alguns voltariam a trabalhar na região após a graduação e outros levariam lições valiosas para onde quer que venham a trabalhar. Minhas certezas são baseadas em observações de estudantes americanos e brasileiros que participaram de programas similares (Peace Corps e Projeto Rondon).  Eles têm um entendimento muito mais profundo de problemas relacionados ao desenvolvimento sustentável do que outros estudantes e profissionais.

Por que e como empresas deveriam participar? As empresas que pagam compensação ambiental* aos órgãos ambientais deveriam estimular este tipo de arranjo para garantir que os recursos sejam aplicados eficientemente – atualmente, parte do dinheiro pago nem sequer é gasto. Além disso, outras empresas poderiam contribuir com estes programas como parte de suas estratégias de responsabilidade socioambiental e de marketing.  Além de contribuir com dinheiro, elas poderiam oferecer aos seus executivos um período sabático nas UCs. Tais profissionais certamente trariam muita experiência para os estudantes e comunidades locais e também poderiam gerar novas oportunidades de negócios para suas empresas com base nestas experiências.

Em resumo, em vez de manchetes tristes, a Amazônia poderia ser a fonte de alegria, conhecimento e desenvolvimento sustentável por meio da colaboração entre governos, academia, estudantes, comunidades locais e empresas.

 

*Empresas que licenciam empreendimentos causadores de danos (por exemplo, pela construção de uma hidrelétrica ou a operação de uma mina) devem pagar a compensação ambiental.


Área equivalente ao Paraná foi desmatada inutilmente na Amazônia

02/09/2011

Quem viaja pela Amazônia fica impressionado com a quantidade de terras desmatadas, mas que são pouco produtivas ou improdutivas em termos agropecuários; ou seja, não são usadas para as finalidades de quem desmatou. São imensas áreas de pastos sujos e capoeiras (floresta que iniciou a regeneração após a degradação do pasto ou uso agrícola itinerante). Enfim, são florestas que foram desperdiçadas.

Finalmente, agora temos números sobre o desperdício. A Embrapa e o Inpe lançaram esta manhã os resultados do projeto TerraClass Amazônia que mapeou a cobertura do solo nas áreas desmatadas até 2007.

Com números divulgados por um colega (@LuizMotta) que acompanhou a apresentação dos resultados em Brasília, fiz algumas análises preliminares.

Os pastos sujos e degradados somavam 37% ou quase 20 milhões de hectares. Esta área equivale ao Estado do Paraná ou duas Coréias do Sul desmatados inutilmente.

O impacto deste desmatamento improdutivo na biodiversidade foi astronômico: 11,4 bilhões de árvores acima de 10 centímetros viraram fumaça e cinzas; 11,5 milhões de macacos e 354 milhões de aves morreram ou foram desalojados*.

Agora é hora de pensar no que fazer destas áreas. Parte delas pode ser transformada em plantios agropecuários e florestais e outras partes deveriam voltar a floresta nativa porque tem baixo potencial agropecuário e também para cumprir a Reserva Legal. A proporção para cada uso deve considerar as condições agronômicas, fundiárias e legais locais. De qualquer forma, é possível imaginar que a produção agropecuária pode aumentar muito mesmo com uma fração dos 20 milhões improdutivos.

Ademais, a produção pode aumentar muito mesmo nos pastos que estão limpos. O professor Moacyr Corsi da USP declarou recentemente que o aproveitamento dos pastos no Brasil fica em torno de 40% a 50%. Eu o acompanhei em Paragominas onde ele mostrou isso no campo. O gado não come todo o capim por erros de manejo do pastoreio. Se considerarmos um ganho bastante modesto (20%) na melhoria do pastoreio dos 33 milhões de hectares de pasto limpo seria possível aumentar em pelo menos 7 milhões de cabeças de gado nos pastos já abertos.

Em resumo, essas análises muito simples indicam quão é absurdo o Brasil continuar desmatando a Amazônia já que desperdiçamos tanto do que já foi desmatado.

*Para estimar o impacto na biodiversidade considerei as estimativas da densidade de indivíduos apresentados neste estudo.


Código Florestal: ambientalistas e ruralistas farão um tratoraço ambiental

30/08/2011

Esta manchete é fictícia, mas poderia se transformar em realidade de acordo com a narrativa a seguir.

O senador Jorge Viana está tendo uma tarefa difícil. É o relator da Comissão de Meio Ambiente do Senado que avalia o código florestal. Um dia ele ouve cientistas dizendo que o projeto aprovado na Câmara tá cheio de problemas. No outro, ouve os ex-ministros de meio ambiente que concordam com os cientistas. Porém, no dia seguinte ouve os ex-ministros da agricultura dizerem que o projeto é ótimo e vai garantir a conservação e a produção agropecuária.

Essas contradições têm preocupado e irritado alguns senadores. Semana passada, no início da audiência dos ex-ministros da agricultura um deles disse que é preciso promover um debate entre os convidados para tratar destas contradições. Depois da mesma audiência, uma senadora disse que faltou propositalmente a reunião do dia anterior com os ex-ministros de meio ambiente, pois não aguenta mais ouvir os argumentos ambientalistas.

Diante dessas contradições, preocupações e sinais de colapso do diálogo, o senador Jorge Viana fez uma proposta interessante na semana passada. Sugeriu que os ex-ministros da agricultura e de meio ambiente se reunissem durante um dia para chegar a um meio termo. A proposta é boa, mas me atrevo a sugerir alguns aperfeiçoamentos de método para ajudar a sair do impasse.

O encontro deveria ser realizado durante pelo menos uma semana em visitas de  campo a vários tipos de imóveis rurais (grandes, pequenos e nos vários biomas) onde os ministros e senadores debateriam problemas concretos. A concretude dos problemas forçaria uma reflexão focada.

Eles seriam acompanhados por cientistas nas áreas de interesse (solo, biodiversidade, clima, economia, engenharia florestal) e um especialista em finanças públicas (Show me the money!). Os cientistas e especialistas ajudariam a confrontar eventuais interpretações enviesadas das realidades do campo e a busca de soluções.

Os ex-ministros e senadores se hospedariam na casa de agricultores e fariam as refeições juntos. Um especialista em gestão de conflitos acompanharia o grupo para facilitar esclarecer as divergências e como solucioná-las.

O convívio no campo poderia resultar em um acordo surpreendente como descrevo a seguir.

Diante de uma Área de Preservação Permanente degradada, seria mais provável que senadores e ex-ministros discutissem como evitar e corrigir tal situação do que em alguém repetir que o código florestal atende a supostos interesses internacionais.

Um ex-ministro de meio ambiente diria:

“Precisamos criar incentivos econômicos para a recuperação das áreas degradas nos imóveis pequenos”.

Todos os ex-ministros e vários senadores concordariam. Porém, antes que um pequeno produtor (seu João),  ouvindo a conversa se animasse, um dos senadores diria:

“Essa estória de pagar por serviços ambientais é conversa pra boi dormir. O Brasil não tem dinheiro para isso!”

Seu João, irritado com as notícias sobre corrupção diria:

“Como que não tem dinheiro, Senador? Tem dinheiro sim! O problema é que tem corrupção demais. Dias atrás o ex-diretor da Conab, irmão do senador Jucá que está aqui disse que no Ministério da Agricultura só tem bandido. A presidente Dilma demitiu alguns, mas já ouvi dizer que a faxina parou. Parou por quê?”

Já nervoso, seu João arremataria:

“Se acabasse com a corrupção sobraria dinheiro pra nos ajuda a cumprir a lei e pra melhorar a condição da nossa terra”.

Silêncio no ar.

O especialista em finanças públicas, aproveitando o silêncio:

“É verdade seu João, um estudo recente da Fiesp estimou que a corrupção atinge R$51 bilhões por ano. Se o governo reduzisse pelo menos 30% da corrupção, sobraria uns R$ 15 bilhões por ano para investir na recuperação de áreas degradadas. Imagino que R$ 15 bilhões daria para plantar muitas árvores”.

Antes que alguém responda quanto daria para plantar com R$ 15 bilhões, seu João desafia:

“Então senador, como que não tem dinheiro?

Mais silêncio no ar.

O engenheiro florestal que acompanha o grupo calcula rápido na cabeça:

R$ 15 bilhões dividido por R$1.500 para recuperar um hectare degradado): “10 milhões de hectares reflorestados por ano!”.

Incrédulo, pensa:

“Tudo isso?”

Tira o celular do bolso e refaz a conta na calculadora para não falar bobagem diante de ex-ministros e senadores. Sua cabeça estava certa: 10 milhões de hectares reflorestados por ano!

O engenheiro florestal vocaliza o número:

“10 milhões de hectares reflorestados por ano!”

Seu João desafia novamente:

“Tá vendo senador? É uma muita área. O que vocês vão fazer?”

Um senador constrangido começa a explicar:

“Veja bem seu João, já estamos lutando contra a corrupção. A situação está melhorando”.

Antes que o senador se prolongue, o especialista em finanças públicas lembra:

“Senador, o estudo da Fiesp é de 2010. O problema ainda é grave”.

Seu João se vira para a Senadora Kátia Abreu, que ele sabe é guerreira:

“Senadora, não dá pra fazer um tratoraço contra a corrupção? Quando a senhora organiza o tratoraço para renegociar a dívida agrícola a senhora consegue. Não consegue?” Vamos fazer um tratoraço contra a corrupção junto com os ambientalistas para garantir dinheiro para os agricultores!

O ex-ministro Minc visualiza a manchete nos jornais:“Tratoraço ecológico pelo Código Florestal” e dispara:

“Vamos fazer Senadora Kátia Abreu. Eu convoco os ambientalistas para o tratoraço ecológico!”

Kátia Abreu se rende:

“Vamos fazer.”

Os cientistas complementam:

“Nós convocaremos os cientistas e universitários”

O especialista em finanças públicas, que é do Ministério da Fazenda, engrossa o caldo:

“Vamos convocar os funcionários públicos de carreira, pois estamos cansados da imagem de corrupção que em muitos casos é feita por indicados políticos. O governo tem de diminuir estas indicações.”

No restante do dia, os participantes do encontro começam a ligar para seus pares para consultar sobre os detalhes do tratoraço ecológico.

Em quinze dias o tratoraço seria realizado com dezenas de milhares de participantes.

A presidente Dilma, apoiada pelo povo, continuaria a faxina e o Congresso apoiaria as mudanças de regras contra a corrupção.

O Senado aprovaria um código florestal que incorporaria as melhores praticas para garantir a harmonia de produção e conservação. E mais do que isso, com garantia de recursos para apoiar a restauração de áreas degradadas.

Assim, o Brasil mataria dois coelhos com uma cajadada: reduziria a corrupção e garantiria a conservação ambiental. Quem topa?


Como subdesenvolver a Amazônia?

17/07/2011

Quem assiste aos telejornais certamente considera que a cidade do Rio de Janeiro é muito violenta. E de fato é. Em 2008, lá foram assassinadas 31 pessoas para cada 100.000 habitantes. Mas, o Rio de Janeiro é um paraíso comparado à Itupiranga no sul do Pará onde este índice foi cinco vezes maior (161) no mesmo ano. Infelizmente, Itupiranga, que foi o município mais violento do país em 2008, não está sozinha.

Muitas regiões do Pará são assustadoramente violentas. Entre os 50 municípios mais violentos do país, nove estavam no Pará em 2008, incluindo entre eles Marabá (125), Goianésia do Pará (109,6) e Rondon do Pará (97,7). Pior ainda, algo parece despertar a violência na Amazônia. Treze dos 50 municípios mais violentos do país estão na região (incluindo os estados do Mato Grosso, Roraima, Rondônia e Maranhão), com índices pelo menos 2,3 vezes maiores do que no Rio de Janeiro.

Será que há algo no ar ou nas águas da Amazônia que tornam as pessoas violentas na região? Não. A violência na região tem sido construída por omissões e ações dos poderes públicos federal, estadual e local e de parte da elite empresarial.

Governos e empresas têm investido ou prometido investimentos que atraem imigrantes muito rapidamente sem prover a região dos meios compatíveis para prevenir e combater a violência e outros problemas socioambientais.

Parte destes investimentos só ocorre por causa de pesados subsídios (dinheiro de quem paga imposto) para a agropecuária, para mineração, para hidrelétricas e outros.

Um subsídio perverso é o uso gratuito de terras públicas da região.  Incentivos e omissões do poder público levam pessoas a ocuparem terras para explorar madeira e para a agropecuária sem pagar pela madeira ou pela terra. Em 2009, cerca de 300.000 posseiros irregulares ocupavam 67 milhões de hectares na região (equivalente a 2,7 vezes o estado de São Paulo). Muitas vezes, quem corre  para se apossar destas terras liquida os concorrentes à bala.

Além de obter terras gratuitamente, a ocupação é ainda mais vantajosa, pois existe crédito agrícola subsidiado. Tais créditos somaram R$ 75 bilhões entre 1997 e 2009 na Amazônia Legal.

A construção da hidrelétrica de Belo Monte, que custará cerca de 20 a 30 bilhões de reais, atrairá quase 100.000 pessoas para a região de Altamira no Pará. O Ministério Público Federal tem demonstrado que a licença ambiental foi concedida sem o cumprimento total das condicionantes que o próprio governo estabeleceu.

A omissão envolve vários níveis. O poder público investe ou incentiva o investimento sem aumentar substancialmente a presença da polícia, de promotores e juízes. Um desenvolvimento verdadeiro, que é o que o governo diz estar promovendo com os investimentos, envolveria aumentar expressivamente todos os serviços públicos (educação, saúde, gestão ambiental e fundiária).

Parte da elite empresarial nacional e internacional também contribui para o caos, pois fazem lobby pelos projetos grandiosos sem as salvaguardas devidas (ou até lutando para que não existam as salvaguardas).

Parte dos governantes estaduais e municipais apóiam tais projetos enganados pela propaganda do progresso ou seduzidos por algum ganho eleitoral de curto prazo (ou por outros ganhos inconfessáveis). Outra parte dos governantes parece saber que este modelo de ocupação subdesenvolve a região, mas se resigna por falta de meios para lidar com tanta pressão do governo federal e de grandes empresas.

Seria possível construir outro cenário de desenvolvimento mais pacífico e genuinamente sustentável da Amazônia? Sim, bastaria que governos e empresas cumprissem suas promessas em planos de governo e declarações de responsabilidade socioambiental. Porém, a situação pode até piorar.

Quem tem ousado avaliar o que vem ocorrendo na região vem sendo chamado de traidores da pátria, inocentes ou incompetentes. Esse discurso começa a ganhar espaço em alguns meios de comunicação repetido por gente que supostamente é bem informada. Se essa cortina de fumaça ocultar realidades como a que citei aqui sobre a violência, será difícil construir um cenário mais promissor.

Portanto, é hora do Brasil dizer o que quer fazer com a Amazônia. Subdesenvolvê-la e torná-la ainda mais violenta com investimentos irresponsáveis ou investir verdadeiramente em um desenvolvimento mais sustentável. Se governantes e parte dos empresários operando na região não mudarem suas práticas, é hora de rasgarem suas promessas de campanha e cartas de compromisso socioambiental.

 

P.S 1. É triste constatar que os investimentos que subdesenvolvem a Amazônia hoje seguem padrão parecido ao que já foi avaliado no início da década de 1980  no livro Underdeveloping the Amazon. Extraction, Unequal Exchange, and the Failure of the Modern State  de Stephen G. Bunker. Não aprendemos com a história.

P.S 2. O estudo a seguir avalia as minúcias de como o o sul do Pará se tornou um território tão violento. Simmons, C. 2005. Territorializing land conflict: Space, place, and contentious politics in the Brazilian Amazon. GeoJournal , Volume 64 (4). Springer Journals – Dec 1, 2005

Fonte de dados: Os dados de violência do Brasil são oriundos do Instituto Sangari que publica o mapa da violência por municípios. A tabela de dados está disponível em http://www.sangari.com/mapadaviolencia/tabelas2011/HTN.xls. As taxas de homicídios internacionais foram coletadas em http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_intentional_homicide_rate


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